Ela era tão parecida com Alexander que era assustador. Os mesmos olhos intensos, escuros como um poço sem fundo, que pareciam enxergar até a alma de quem ousasse encará-los por muito tempo. Olhar para Lily era como ser atraída por um ímã poderoso e perigoso, um convite irresistível para o abismo. E, ainda assim, eu continuava olhando.
Seu rosto era um paradoxo ambulante. O nariz reto, alto e imperioso parecia ter sido esculpido por um escultor invejoso. Os traços da família Speredo não eram apenas bonitos — eram imponentes, quase intimidadoras, como se cada linha dissesse: “Eu sou melhor do que você, aceite.” Até mesmo as sardas delicadas no rosto de Lily pareciam competir por atenção, suavizando o que, de outro modo, seria uma beleza implacável.
Enquanto eu tentava disfarçar o fascínio desconfortável que sua aparência me causava, Lily, claro, não perdeu a oportunidade de quebrar o silêncio com sua usual falta de tato:
— Não vamos perder o tempo uma da outra — disparou, com um tom tão afiado quanto o salto de um Louboutin. — Minha mãe está organizando uma festa na quarta-feira. Prometeu que você será o centro das atenções. Sei que Alexander nem se incomodaria em te avisar. Como sempre, ele resolveria tudo sozinho. Mas eu discordo disso. Está na hora de você se responsabilizar pelas consequências das suas escolhas.
A maneira como ela falou, com aquele ar de superioridade, acendeu algo em mim. Respirei fundo antes de responder, tentando não morder a isca.
— Não precisa me lembrar, Lily, em toda conversa, que sou uma “recebedora” nesse casamento. Nunca pedi nada ao seu irmão, muito menos que ele me excluísse das decisões. Obrigada por me informar sobre a festa. Eu mesma decidirei o que fazer.
Ela inclinou a cabeça, avaliando-me como um predador estudando a presa.
— Seja honesta, Charlotte. Você voltou para se vingar? — perguntou, sua voz carregada de malícia. — Sei que Alexander nunca acreditaria em nada do que eu dissesse sobre você, então seja sincera comigo. Você está aqui para destruir meu irmão?
A acusação era tão absurda que ri, balançando a cabeça enquanto cruzava os braços.
— Limites, Lily. Até para imaginação. Eu? Planejando vingança? — Encarei-a, incrédula. Eu parecia poderosa o suficiente pra enfrentar os Speredo? — Se tem algo que eu sempre quis foi evitar problemas. Quando você trouxe outra mulher para mexer com meu marido, eu sequer confrontei você. Apenas saí da vida de vocês.
Lily arqueou uma sobrancelha perfeita, seu olhar transbordando descrença.
— Deixá-lo não foi a decisão mais cruel que você já tomou?
Fiquei em silêncio por alguns segundos, processando suas palavras. Ela suspirou e completou, quase como quem lamenta:
— Você realmente não tem ideia, não é?
O que ela queria dizer com aquilo? Antes que eu pudesse perguntar, ela ergueu o queixo e disse, num tom que só poderia ser descrito como um aviso velado:
— É melhor você não tentar se fazer de esperta no futuro. Se trair meu irmão, não terei misericórdia.
E saiu, deixando um perfume caro e um gosto amargo no ar.
Por mais que sua fala ecoasse na minha mente, algo em suas palavras me atingiu: talvez essa fosse, de fato, a oportunidade de me apresentar à sociedade como a esposa de Alexander Speredo. Eu sempre quis me preservar, me esconder, mas a verdade é que essa liberdade já não existia. Seria melhor assumir minha posição do que ser alvo de especulações e rumores.
Além disso, faltava só um detalhe: convencer Alexander. E, acredite, não foi fácil. Discussões, olhares de reprovação e chamas de raiva nos olhos dele preencheram nossas interações até que, na véspera da festa, ele finalmente cedeu:
— Está bem.
Saí sorrindo, enquanto ele deixava o cômodo com uma expressão que beirava a combustão espontânea. Mas um “sim” é um “sim”, e, para mim, isso era o suficiente.

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