Seu olhar era intenso, quase hipnótico, tão diferente de todas às vezes que nossos olhos se cruzaram antes. Alexander, tão controlado, parecia ter decidido que não ia mais disfarçar. Ele me olhava como se quisesse me entender e me possuir ao mesmo tempo, e isso era insuportável.
Eu não amava este homem. Nem sabia se algum dia seria capaz disso. Aos meus olhos, ele era um estranho, alguém que eu fui forçada a aceitar em minha vida sem sequer ter a chance de decidir por mim mesma. E enquanto seus olhos pareciam transbordar algo que poderia ser amor — ou pelo menos algo muito próximo disso —, os meus só refletiam frieza e medo.
Ele ergueu as mãos, segurando delicadamente minhas bochechas entre as palmas. Meu corpo inteiro ficou tenso. Alexander se inclinou, a poucos centímetros de mim, e naquele momento eu soube o que ele pretendia fazer. Antes mesmo de nossos lábios se tocarem, estremeci e me afastei, recuando com uma frieza que nem sabia que tinha.
— Vamos descer e acabar com esta festa. Estou cansada — disse, com uma voz que soou seca, quase cruel, mas que era o reflexo exato do que eu sentia naquele momento.
Alexander parou, seus olhos procurando algo em mim. Ele assentiu silenciosamente, estendeu a mão, indicando que eu deveria segurá-la. Meu coração deu um salto, mas a mágoa que eu carregava era mais forte. Passei direto, fingindo que não vi sua mão.
Descemos, cumprimos as formalidades da festa com a expressão mais impassível possível e voltamos para o quarto, onde dormimos como dois estranhos que dividem o mesmo teto, com nossos orgulhos feridos e a distância entre nós parecendo intransponível.
Agora, enquanto eu me via no espelho, vestindo o deslumbrante vestido escolhido para essa noite, escolhido por ele, e as coisas eram muito diferentes. Ele estava ali, me observando com uma intensidade que me fez arrepiar.
— Como estou? — perguntei, tentando soar maliciosa, mas minha voz carregava uma hesitação que eu não conseguia controlar.
Alexander não respondeu. Não imediatamente. Seus olhos eram um mar revolto, cheio de sentimentos que ele nunca colocaria em palavras. Fiquei esperando, mas a resposta não veio.
— Eu não sou bonita? — insisti, incapaz de conter a insegurança.
Ele cruzou a distância entre nós em poucos passos, tão rápido e inesperado que me fez prender a respiração. Então, senti o toque frio do metal contra minha pele. Ele colocou um colar ao redor do meu pescoço, seus dedos ajustando a peça com precisão, como se fosse a coisa mais importante do mundo naquele momento.
No reflexo, o colar brilhava com uma pedra dourada central cercada por diamantes que se espalhavam como folhas delicadas. Era deslumbrante, como algo saído de um conto de fadas.
— É lindo — murmurei, tocando o colar com cuidado, como se tivesse medo de quebrá-lo. — São todos diamantes?
— Sim — ele respondeu, o tom grave, quase como se estivesse irritado.
— Parece caro.
Meus olhos encontraram os dele no reflexo. Ele parecia desconfortavelmente frio, quase como se estivesse me julgando. E então, veio a sentença:
— E é. Mas sabe o que é mais caro? — Ele fez uma pausa, sua mandíbula tensa. — A coisa mais importante da minha vida. E você insiste em colocá-la em risco. — Ele fez uma pausa. — Você sabe que ainda sou contra a sua decisão. Se quer ser apresentada, posso organizar uma festa aqui. Não precisa ser lá.
Respirei fundo, tentando encontrar as palavras certas. Eu sabia que ele estava preocupado, mas precisava mostrar que minha decisão era final.
— Nada vai acontecer comigo. Prometo. Vamos ficar apenas alguns minutos, e você estará ao meu lado o tempo todo.
Ele não respondeu. Apenas continuou me olhando pelo espelho, como se esperasse que eu voltasse atrás. Mas eu não voltaria.
Finalmente, me virei para encará-lo. Nossos olhares se encontraram, e minha voz saiu mais suave, mais sincera:
— Ainda pareço simples?
Seus olhos se estreitaram, e por um segundo, achei que ele fosse ignorar minha provocação. Mas então, sua expressão mudou. Ele deu um passo à frente, tão perto que minha respiração se misturou à dele.
— Você é linda. Sempre a mais linda — disse, sua voz carregada de uma honestidade que me desarmou completamente. — E sempre será.
Meu coração deu um salto confortável, e antes que pudesse controlar minha reação, senti uma onda de calor subir pelas bochechas. Não tive tempo de processar nada, porque Alexander se inclinou, e num instante, seus lábios tocaram os meus.
O beijo foi profundo, lento, mas carregado de intensidade. Minhas mãos subiram para seus ombros, puxando-o para mais perto. Havia algo primitivo em como ele me segurava, como se eu fosse sua única âncora naquele momento.
Quando ele finalmente se afastou, o ar entre nós parecia mais pesado, mais carregado. Ele deu um passo para trás, me observando com um olhar que parecia desarmado e, ao mesmo tempo, protetor.
Eu me virei de volta para o espelho, tentando recuperar o controle, mas o reflexo me denunciava. Minha maquiagem estava borrada, e a evidência do beijo estava mais do que clara. Olhei para ele furiosa e aquele demônio tinha um sorriso cínico no rosto.
Poucos minutos depois, a equipe de maquiagem foi chamada de volta às pressas. Eu estava completamente arruinada.
Alexander aceitou minha resposta sem questionar. Enquanto o carro seguia seu caminho, o silêncio entre nós parecia quase confortável. Mas minha mente, como sempre, estava a mil. Olhei para ele, a expressão carregada de dúvidas, e perguntei:
— Minha ida à festa foi um erro? Não me sinto diferente agora que todos me conhecem.
Alexander balançou a cabeça.
— Tudo correu bem, inesperadamente. E, graças à sua presença, não precisei lidar com pessoas desnecessárias.
Quando finalmente chegamos em casa, me senti aliviada. Nenhum drama familiar, nenhuma garota se jogando em Alexander, e nenhum ataque feroz dos críticos da alta sociedade. Na verdade, fiquei tão satisfeita que decidi que seria um desperdício dormir enquanto estávamos em um raro estado de bom humor.
Depois de trocar de roupa e jantar de forma casual, sugeri que sentássemos no jardim para aproveitar a noite fresca de verão. Para minha surpresa, ele aceitou a ideia com um sorriso. Mas, claro, um workaholic sempre será um workaholic. Assim que nos acomodamos em um banco no jardim, ele chamou o mordomo e pediu que trouxesse seu laptop, que havia milagrosamente esquecido no carro.
Observei Alexander por um bom tempo enquanto ele, completamente alheio à minha frustração, analisava uma apresentação de slides. Quando finalmente aceitei que ele nunca perceberia o quão irritada eu estava, decidi agir. Empurrei o laptop para longe de seu colo e me deitei ali, colocando minha cabeça onde antes estavam gráficos e números.
Peguei sua mão e a coloquei em minha cabeça, encarando-o com determinação:
— Você não precisa trabalhar 24 horas por dia. Talvez investir tempo na sua esposa também seja uma boa ideia.
Alexander começou a acariciar meu cabelo, sua mão quente e firme me acalmando mais do que eu gostaria de admitir. Ele não respondeu. Apenas ficou ali, falando mais com seus gestos do que com palavras.
Conversamos de forma descontraída sobre assuntos sem importância. O jardim parecia um mundo à parte, longe de todas as preocupações e pressões. Mas, como sempre, a calmaria não durou muito. O som de vozes alteradas vindo da entrada interna da mansão quebrou o momento.
Ergui a cabeça rapidamente.
— Acho que vovó e Lily estão de volta — comentei, levantando-me apressada.
Alexander ficou no banco, mas eu fui investigar. Caminhei até a entrada, esperando encontrar vovó com seu humor típico, mas, para minha surpresa, só vi Lily e Pedro. E, ainda mais surpreendente, eles estavam discutindo acaloradamente.

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