Eu estava lá, enfrentando o ataque verbal mais cruel que já recebi, e ele simplesmente riu. E continuou rindo! Aquele homem que raramente esboçava um sorriso genuíno agora estava gargalhando como se tivesse ouvido a piada do século.
— Por que estou falando disso com você?! Por que tenho que aturar sua família e esses convidados insuportáveis?! Não vou descer para ver a Ayla de novo, nem morta!
Alexander finalmente parou de rir, embora um sorriso divertido ainda brincasse em seus lábios. Ele cruzou os braços, me observando com aquele olhar calculista costumeiro.
— Você ainda é a mesma Charlotte que eu conheço. Achei que tivesse mudado.
Antes que eu pudesse exigir uma explicação para aquele comentário totalmente fora de contexto, ele encurtou a distância entre nós de forma inesperada e pressionou os lábios contra os meus.
Eu congelei. Era um beijo curto, quase hesitante, mas suficiente para fazer meu coração martelar como se estivesse prestes a explodir do peito. Cada célula do meu corpo parecia despertar de um sono profundo. Quando ele se afastou, só o suficiente para que nossos olhos se encontrassem, fiquei encarando-o em silêncio, a mente correndo em círculos enquanto o calor subia ao meu rosto.
Hoje, com o benefício da clareza, percebo que ele também ficou surpreso com o que fez. Naquele momento, porém, não havia espaço para análises profundas. Ele parecia incerto, quase vulnerável, e então perguntou:
— Posso te beijar?
A pergunta parecia deslocada. Hoje sei que ele só queria confirmar se eu estava bem com o que acabara de acontecer. Mas naquela hora, minha mente mais suja e confusa interpretou aquilo como um pedido de permissão para outro beijo.
E o que fiz? Fechei os olhos com força, prendi a respiração e esperei. Aposto que não havia nada sedutor na minha expressão naquele momento, mas Alexander, sendo quem era, ignorou qualquer falta de romantismo e decidiu que aquilo era uma permissão. Sua mão segurou delicadamente minha nuca, e ele me beijou novamente — desta vez mais longo, mais profundo.
Agora eu gostaria que as coisas fossem tão simples, como antes que era só fechar meus olhos que ele simplesmente se lembra que eu sou a garota que ele ama e não resiste em me beijar!
Mas tornou-se tão difícil aproximar-se dele ultimamente!
Mais tarde naquele dia, após o retorno triunfal de meus sogros à mansão, percebi que o caos na casa Speredo nunca tira folga. Minha sogra entrou como um furacão, já disparando ordens ao mordomo:
— Prepare o salão! Traga os móveis que ganhei! Certifique-se de que a cozinha está pronta para amanhã!
Lily, a irmã mais sensata de Alexander, desapareceu rapidamente em direção ao quarto, enquanto meu sogro, sempre gentil, sorriu para mim e disse:
— Vá descansar, Charlotte. Vou conversar com a mãe e explicar o que aconteceu.
Assenti, agradecendo silenciosamente por aquela pequena trégua, e subi as escadas. Alexander vinha logo atrás, mas mal havíamos cruzado metade do hall quando o telefone dele tocou. Ele verificou a tela rapidamente antes de me informar:
— Preciso ir à empresa. Descanse, está bem?
Ele já se virava para sair quando, de repente, parou e me chamou:
— Charlotte.
Pedi à funcionária que me ajudasse a trocar os curativos. Depois de todo o drama causado pelo meu acidente, pelo menos eu deveria parecer um pouco mais frágil, não é? Assim que ela terminou e saiu do quarto, escolhi um vestido verde-claro de renda, elegante, mas simples. Soltei o cabelo, ainda um pouco úmido, e desci para o salão de convidados, pronta para enfrentar o que viesse.
Ao chegar, percebi que minha presença era quase desnecessária. Minha sogra estava em pleno comando da situação, distribuindo palavras calculadas e sorrisos estudados. Sentei-me ao lado de minha avó, aproveitando a desculpa perfeita para evitar interações mais profundas. Passei o tempo tranquilizando-a, explicando que as bandagens eram apenas um exagero para proteger pequenos arranhões.
Então, como uma cobra pronta para dar o bote, a senhora Karimi decidiu me atacar.
— Você não pretende retomar seu trabalho como jornalista? — perguntou, com um sorriso que parecia tão doce quanto falso. — Seria maravilhoso tê-la como âncora de telejornal. Sua voz e seu dialeto são tão encantadores. Tenho certeza de que o público adoraria vê-la na televisão.
Olhei para ela, tentando decifrar se aquilo era um elogio ou uma provocação disfarçada. Sentindo-me desconfortável, respondi simplesmente:
— Não.
Pelo jeito, ela esperava uma resposta mais elaborada, porque o sorriso dela vacilou antes de continuar:
— É uma pena que alguém com tanto talento esteja desperdiçando-o ficando em casa. Ouvi dizer que você era uma estrela na faculdade. Não consigo me lembrar de quem me contou... Acho que foi o antigo fundador da revista Anetty. Como era o nome dele mesmo? Ah, sim, o rapaz que está na prisão agora.
Ah, claro. Mattia. Ela estava falando dele, não estava?
A senhora Karimi me observava como uma predadora esperando que a presa vacilasse. Meu coração acelerou, mas eu mantive o rosto impassível. Ela queria uma reação, mas não daria esse gostinho a ela.

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