Quando Alexander abriu a porta do restaurante, meu estômago deu uma cambalhota. Não porque eu estava faminta ou impressionada com o lugar — embora fosse o tipo de ambiente em que até as luzes pareciam mais caras que minha roupa inteira —, mas porque eu sabia o que estava por vir.
Ele entrou com aquela postura calma e confiante que só ele sabia ter, e, como sempre, ajustou os passos aos meus, como se fosse uma espécie de dança ensaiada. Era irritante como ele parecia sempre saber o que eu precisava, mesmo que eu não admitisse.
A garçonete nos levou a uma sala privada, decorada como se tivesse saído de uma revista de design. Havia algo reconfortante e opressor ao mesmo tempo naquele ambiente — ou talvez fosse só a presença dele ao meu lado. Alexander parou, fazendo um gesto sutil com a mão para que eu entrasse primeiro. Respirei fundo, enchi o peito de coragem e atravessei a porta, tentando não parecer tão nervosa quanto me sentia.
Dentro da sala, duas pessoas estavam sentadas, olhando na nossa direção. Meu olhar pousou primeiro no homem ao lado dela. Ele parecia familiar, mas não consegui situá-lo. Um primo, talvez? Um sobrinho? E então meus olhos alcançaram a mulher que eu não via há anos.
Minha mãe.
Ela estava deslumbrante, como se o tempo tivesse sido gentil demais com ela. Cabelos loiros trançados, maquiagem leve e aquele batom vermelho que gritou “estou no controle”. Era quase impossível não a comparar à versão dela que vivia nas minhas memórias. E, claro, eu me senti… uma sombra.
Mas não, eu não estava emocionada. Nem um pouco. Depois de tudo o que ela fez — ou melhor, não fez —, não havia espaço para emoção. Só raiva. E um pouco de inveja, talvez. No fundo, queria que ela estivesse acabada, que a vida tivesse sido dura com ela. Mas não. Ela parecia estar vivendo muito bem sem mim, obrigada.
— Bonjour. — O cumprimento dela em francês fez meu sangue ferver.
Desde quando essa mulher falava francês? A última vez que nos vimos, ela achava que “séchoir” significava “secador de cabelo”. Foi preciso um dia inteiro para convencê-la do contrário!
Alexander, como de costume, não perdeu tempo com amenidades. Assim que nos sentamos, ele lançou a pergunta como uma flecha:
— Onde está seu marido?
Minha mãe piscou, como se tivesse sido pega de surpresa pela frieza dele. Pobre ilusão. Alexander era sempre assim.
— Meu marido está ocupado com um caso importante no tribunal. Ele não pôde me acompanhar hoje. Por isso… — Ela gesticulou para o homem ao lado dela. — Trouxe meu sobrinho, Nadir Dubois.
Alexander arqueou uma sobrancelha, o gesto tão pequeno, mas carregado de desdém.
— Somos todos pessoas ocupadas, senhora Dubois. Quando entrei em contato, fui claro sobre a importância da presença do seu marido aqui. Não perguntei pelo seu sobrinho. Devo considerar isso um desrespeito à minha pessoa?
A voz dele cortava como gelo. Minha mãe ajustou a postura, desconfortável, mas não desistiu.
— Ele virá. Assim que puder. — Ela lançou um sorriso tenso. — Terá a chance de se apresentar adequadamente a Charlotte.
Eu deveria estar irritada com a hostilidade de Alexander, mas, para ser honesta, era difícil não sentir uma pontada de satisfação ao ver minha mãe se remexer na cadeira. Afinal, se eu era obrigada a encarar esse circo, nada mais justo que ela também fosse colocada contra a parede.
Ouvir minha mãe falar em francês fluente — com aquele tom melódico e pausado, como se fosse natural — me deixou paralisada. Não era inveja nem admiração. Era o choque de encarar alguém que parecia tão distante de quem eu imaginava.
Eu a observava, com um nó na garganta, vendo como ela parecia se encolher diante de Alexander. Mas o que me cortou foi a falta de olhar para mim. Era como se eu estivesse invisível ali, num canto da sala, enquanto ela se concentrava em agradar aquele homem insensível. A sensação de arrependimento tomou conta de mim, e logo percebi que havia cometido o maior erro ao tentar trazê-la de volta para minha vida. Porque aquela mulher não era minha mãe. Era uma estranha.
— Charlotte? — A voz de Alexander soou firme, mas baixa. Ele se inclinou um pouco em minha direção, o olhar mais próximo de um abraço do que qualquer gesto físico.
E então, sem mais, eu caí de cabeça naquilo. Fui completamente tomada por uma raiva cega e inesperada, e eu não pude mais me controlar. Falei com a voz cortante, mas de algum jeito, ainda cheia de dor.
— Aliviada? Cercada de amor? — Minha voz saiu amarga, quase ríspida, antes que eu pudesse me conter. — Isso é uma piada, não é?
Os olhos dela endureceram, mas continuei antes que ela pudesse reagir.
— Cresci como órfã, embora você estivesse viva. Você me abandonou. E agora tem a audácia de dizer que se sente “aliviada”? Alívio é algo que só sente quem se importou. Quem carregou um peso. Você não fez nada disso, então como ousa falar de alívio?
Minha respiração ficou presa na garganta. A sala ficou pequena, sufocante. Minhas mãos tremiam sob a mesa, mas eu não me deixaria desmoronar. Não na frente dela.
— Você nunca se importou. Não comigo. Não com nada. — O calor queimei meu rosto, e minha visão embaçou. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto, caindo em cima das costas da minha mão.
No início, olhei para ela com raiva e uma certeza feroz, mas, em algum momento, minha voz diminuiu. As palavras finais saíram como um sussurro engasgado. Baixei os olhos para as minhas mãos, que agora tremiam ainda mais, umedecidas pelas lágrimas que não consegui conter.
Quando levantei os olhos, me senti menor, como se a minha confiança tivesse se despedaçado no momento em que ela me olhou com aquele sorriso distante. Eu queria ser forte. Queria ser aquela mulher que finalmente dizia tudo o que precisava, mas a verdade é que, naquele momento, eu ainda era a menina que, no fundo, queria entender o que havia de errado com ela. Por que minha mãe me deixara? Por que, mesmo com ela ali, a sensação de abandono nunca desapareceria?
Se alguém me visse de fora, pareceria uma garota quebrada, tentando encolher sua existência em uma cadeira elegante. Mas eu sabia que não importava o quanto eu tentasse me tornar uma pedra. Por dentro, ainda havia carne. Macia. E ele sempre vai sentir.
Ela acabava de rasgar meu coração.

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