Eu achava que Nadir havia sido eliminado da minha vida por Alexander há muito tempo. Felizmente, eu estava enganada. Ou, talvez, nem tão feliz assim.
Por um breve momento, acreditei que poderia confiar cegamente em Alexander, entregar a ele qualquer problema para resolver sem questionar. Mas agora percebo que essa foi minha ingenuidade falando. Porque ao delegar a questão urgente de Nadir para ele, quase perdi a oportunidade de descobrir verdades que haviam sido escondidas de mim por anos.
Por isso, envio minhas devidas menções: a Nadir, o cavaleiro inconveniente, e a Alexander, o escória metódico.
Era uma terça-feira comum, até que meu colega de trabalho enfiou a cabeça pela porta e anunciou, hesitante:
— Charlotte, tem uma chamada pra você na recepção. As linhas estão ocupadas.
A expressão dele já dizia tudo: a recepção era território proibido. Qualquer interação com Sarah, a recepcionista, era garantia de uma aula de paciência. Eu revirei os olhos antes de me levantar.
Sarah tinha o dom de transformar qualquer “bom dia” em uma dissertação completa sobre todos os acontecimentos da empresa no último mês. Deus a abençoe, mas sua habilidade de conectar tópicos aleatórios em uma conversa sem fim era exaustiva.
Suspirei profundamente e fiz o caminho até a recepção. De longe, vi Sarah iluminada como um holofote humano, apontando entusiasmada para o telefone em suas mãos.
— Charlotte! Um homem está te chamando! Ele disse que é advogado e parece jovem! O nome dele é Nadir Dubois… Ele é seu noivo?
A voz dela, alta o suficiente para ecoar pelo andar, atraiu olhares de todos ao redor. Senti meu rosto aquecer.
— Ele não é meu noivo! — arranquei o telefone de suas mãos enquanto todos continuavam nos observando como se fosse a mais nova novela.
— Bonjour, Charlotte — a voz de Nadir surgiu do outro lado, suave e formal. — Que bom que aceitou a ligação.
— Em que posso ajudá-lo, senhor Dubois? — perguntei com frieza, tentando cortar a conversa pela raiz.
— Estou no saguão do prédio. Pode me encontrar por alguns minutos? Não tomarei muito do seu tempo.
Olhei para Sarah, que já parecia prestes a transformar aquilo em um evento público, e decidi que recusar só traria mais problemas.
— Certo, já desço — respondi, entregando o telefone de volta.
Antes que Sarah pudesse lançar outra pergunta inconveniente, acrescentei, em tom baixo:
— Por favor, não comente isso com ninguém. É... meu primo.
Mentira, claro. Mas Sarah assentiu, curiosa demais para questionar na hora.
Peguei o elevador, tentando controlar o desconforto crescente. Quando cheguei ao saguão, lá estava ele, sentado elegantemente em uma cadeira, vestindo roupas impecáveis. Nadir era exatamente o tipo de homem que faz questão de mostrar poder e status.
Ele se levantou assim que me viu, sorrindo daquele jeito que mais irrita do que conquista, e estendeu a mão. Apertei a dele brevemente, mas ele segurou com mais firmeza do que necessário, o que me deixou imediatamente desconfortável.
— Então, o que deseja, senhor Dubois? — perguntei, sentando-me em uma cadeira oposta à dele.
Enquanto ajustava meu casaco, meus olhos instintivamente procuravam por seguranças ao redor. Não que eu achasse que Nadir fosse fazer algo, mas... bem, nunca se sabe.
Ele cruzou as pernas com uma elegância calculada e abriu um sorriso que mais parecia um escudo. Eu sabia que aquilo não ia acabar bem.
Ele me observou por um momento, como se estivesse calculando a melhor forma de começar.
— Acredito que não tivemos uma introdução adequada antes. Meu nome é Nadir Dubois. Sou advogado e trabalho no escritório Dubois & Associados. Meu pai, Hadi Dubois, foi o amigo mais próximo do seu pai.
A menção ao meu pai me pegou desprevenida. Minhas sobrancelhas se arquearam automaticamente.
— Amigo do meu pai? — perguntei, incapaz de esconder a surpresa.
— Sim, Charlotte. — Sua resposta foi firme, como se não deixasse espaço para dúvidas. Ele abriu a pasta de couro que trazia consigo e puxou um conjunto de fotos, entregando-as a mim com cuidado. — Você e eu nos encontramos várias vezes durante sua infância, mas é compreensível que você não se lembre. Eu tinha 16 anos quando seu pai faleceu. Você tinha 10.
Segurei as fotos e meus olhos foram imediatamente atraídos para elas. Lá estava meu pai, mais jovem, rindo ao lado de um homem desconhecido que tinha o tipo de sorriso caloroso que parecia preencher o ambiente. Outras fotos mostravam os dois juntos, e, em uma delas, eu aparecia: pequena, sorrindo no colo do meu pai.
Meu coração pesou. Fazia tanto tempo que eu não via aquele sorriso. O sorriso do homem que costumava ser o centro do meu universo. Meu pai tinha sido a pessoa mais gentil e amorosa da minha vida. Perder ele tão cedo transformou minha existência em uma miséria contínua, e revê-lo assim, feliz, ao lado de amigos, só tornava tudo mais doloroso.

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