Victor estava menos ferido, mas o susto e a adrenalina o faziam tremer. Ele se mexeu, sentindo o ar faltar.
— Ray? Fala comigo!
O vidro estilhaçado do carro cobria o chão, misturado ao sangue. Ele se arrastou com dificuldade, ignorando a dor, começou olhar Rayra.
O primeiro instinto de Victor foi a ação.
Quando chegou perto dela, a visão aterrorizante o fez desabar. Havia muito sangue na roupa dela, e ele não sabia de onde vinha, se era dela ou dele.
— Ray, por favor! Fica comigo! Não dorme! Você vai ficar bem, eu prometo que vou cuidar de você! — Ele gritou, desesperado.
As lágrimas vieram com uma força que ele não esperava, sensação de medo, impotência. O pior não era o medo da morte, era a culpa que o sufocava. Ele começou a pressionar o ferimento dela, contendo o sangramento.
— Me perdoa, Ray. Eu nunca deveria ter feito aquilo com você. Por favor, fica viva! Eu te amo, e eu nunca vou me perdoar por tudo isso!
Rayra estava quase adormecendo. Seu corpo estava mole, mas ela conseguiu mover a cabeça. Olhou diretamente para ele, com os olhos abertos e desfocados. Ela piscou repetidamente, como se tentasse desesperadamente responder o que ele dizia, e soltou um ge mido fraco de dor.
Com um esforço final, ela estendeu a mão trêmula, agarrou a camiseta dele, com um gesto desesperado de quem tenta segurar a única boia em meio ao naufrágio e então, desmaiou. As mãos dele estavam tremendo mais por adrenalina do que por dor, sentia o próprio corpo queimando, mas era como se o tempo tivesse afinado só para ela.
Os minutos pareciam horas, ele repetia nervoso.
— Fica aqui, fica comigo.
A mão dele ficou coberta de sangue, ele sentia o calor do corpo dela, se esvaindo. Os vizinhos apareceram nas portas, com rostos desesperados. Alguém gritou por ajuda, outro já discava no celular. O som das sirenes não demorou, primeiro um uivo distante, depois o clarim decisivo da polícia e, em seguida, a ambulância que rasgou a noite. Em minutos, que pareceram horas, os socorristas correram em direção a eles.
Dois socorristas saltaram da ambulância com lanterna e maletas.
— Quem está consciente? Fala comigo, por favor! — a voz prática do líder cortou o desespero.
Victor mal escutou. Manteve a pressão com ambas as mãos sobre o abdômen dela, olhando para o rosto pálido para ver qualquer sinal de reação.
— Fica comigo Ray, eu estou aqui. — repetiu ele.
Os paramédicos trabalharam rápido. Cobriram as feridas com bandagens compressivas, verificaram sinais vitais enquanto um dos socorristas falava com firmeza para manter a mulher alerta. Não houve heroísmo clínico apenas técnica e foco, controle da hemorragia, oxigênio colocado com máscara, acesso venoso estabelecido.
A polícia isolou o local, recolheu depoimentos rápidos dos vizinhos, e Victor, ainda próximo, foi socorrido também. Ele também sangrava no abdômen a dor que antes quase não sentira agora aumentava, mas em comparação com o rosto dela, sua dor parecia secundária. Os paramédicos avaliaram-no ali mesmo, curativos provisórios, mais uma compressão, e um pedido firme para que ambos fossem imobilizados e colocados na maca.
No hospital, o fluxo foi direto, triagem, exames de imagem rápidos, cirurgiões que conversaram. Rayra foi levada para uma cirurgia imediata para limpar e fechar as feridas, controlar sangramento e avaliar danos internos, enquanto Victor, com ferimento no abdômen que também não atingira estrutura vital, era atendido. E investigado, os vizinhos ouviram que era uma briga por ciúmes, e Victor ainda não tinha pensado, no que ia falar. A irmã dele, chegou lá desesperada, tomando conta de tudo.
A cirurgia de Rayra durou pouco mais de quatro horas. Os médicos precisaram controlar o sangramento, remover o projétil e reconstruir parte do tecido danificado, o prognóstico era reservado, com boas chances de recuperação completa, mas com uma estrada de recuperação à frente.
Victor segurou cada palavra como quem segura a respiração.
Rayra foi levada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ali, as regras eram rígidas, acesso restrito, sem notícias para visitantes não autorizados. Victor e sua irmã, por mais que insistissem, foram impedidos de vê-la ou de ter informações detalhadas além do boletim médico que indicava "quadro estável". O isolamento intensificou a agonia da espera de Victor.
Enquanto Rayra lutava pela vida, Victor foi convocado para prestar depoimento formal. Seu objetivo era proteger Rayra e a si mesmo do escândalo completo.

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