Diante da resposta cortante de Rayra, Victor fez o inesperado. Em vez de ficar magoado ou emotivo, ele começou a rir. Era um riso nervoso, misturado com uma resignação forçada.
— Certo, certo. — ele disse, levantando-se do sofá.
— Entendi o recado. Mas isso não significa que a gente pode não ser, um dia.
— Vou fazer alguma coisa, pra comer.
Ele se dirigiu à cozinha.
— Comida de conforto. Você precisa.
Victor mexeu nos armários em silêncio por alguns minutos, transformando o estresse em calorias. Ele preparou rapidamente um brigadeiro de colher duro, pegou dois sacos de salgadinhos e suco de laranja. Arrumou tudo cuidadosamente em uma bandeja e a levou para a sala.
— Pronto. Um banquete de madrugada. — ele anunciou, colocando a bandeja entre eles.
Os dois começaram a comer. O silêncio agora era menos tenso e mais ocupado pelos sons crocantes dos salgadinhos e o movimento das colheres no brigadeiro. Eles assistiram a dois filmes completos, a exaustão da noite anterior sendo temporariamente afastada pela distração e pelos doces.
Quando o sol estava nascendo, Victor chamou Rayra.
— Vem, vamos deitar de verdade. Você precisa de um sono bom.
Eles foram para a cama. Victor não deitou encostado nela, respeitando a barreira que ela havia erguido, mas ficou fazendo um carinho leve e constante no cabelo dela até que ambos adormecessem, finalmente encontrando paz no cansaço.
Eles acordaram quase no horário do almoço. Rayra levantou primeiro, com o rosto amassado pelo sono, mas com a mente já focada em sua rotina de recuperação. Ela foi diretamente para a cozinha tomar seus remédios.
Victor levantou-se logo em seguida. Ele se aproximou dela por trás enquanto ela passava o café, abraçando-a e beijando seu pescoço de forma afetuosa, sentindo o perfume dela.
— Bom dia, Ray — ele sussurrou.
— Tudo bem? Está com dor?
Ela permaneceu indiferente ao toque e ao carinho, respondendo com a voz monótona enquanto servia o café.
— Bom dia. Tô de boa.
Então, sem mudar o tom, ela começou a listar os desejos que a ansiedade e o tédio tinham provocado:
— Quero comer panqueca de carne com queijo, com suco de açaí. E bolo de doce de leite com abacaxi. Ou nozes.
— Quero um roupão, não aqueles de banho. Aqueles...não me lembro o nome.
Victor se manteve próximo, cheirando o pescoço dela e dando beijinhos afetuosos.
— Tipo manta, né? Aqueles macios? — ele perguntou, referindo-se ao roupão.
— Isso mesmo. — ela confirmou, indo em seguida sentar-se à mesa para tomar café.
— Quero um chinelo também. Mais bonito, sabe?
Ela não serviu nada para ele. Victor ficou olhando Rayra comer ovos mexidos e pão. Essa indiferença era um contraste gritante com a Rayra de antes, que o mimava muito.
Com um suspiro discreto, ele se serviu sozinho e comeu mexendo no celular, procurando as coisas que ela havia pedido, o roupão, o chinelo e as refeições, especialmente os bolos. Ele estava disposto a agradar, mas a falta de reciprocidade e a lista crescente de exigências estavam minando sua paciência.
Rapidamente, ele se trocou e, sem insistir em mais nada, saiu sozinho, determinado a cumprir as tarefas.
Victor passou a manhã inteira correndo atrás da lista de pedidos de Rayra. Ele comprou tudo o que ela pediu, agindo com naturalidade.
Da loja, ele mandou fotos das opções de chinelos e Rayra, sem pressa, escolheu dois modelos. Quando Victor avisou em qual loja ele estava comprando o roupão macio, ela imediatamente adicionou um item à lista, pedindo um pijama novo. Victor suspirou, mas obedeceu, mandou fotos e ela escolheu um conjunto.
Rayra sentia um desconforto profundo com o próprio comportamento. Nunca em toda a sua vida ela havia agido de maneira tão exigente e mimada. No entanto, ela não ia parar. A dor e a raiva que sentia eram imensas, e a única forma que encontrou de lidar com elas era punir Victor pelo caos que ele havia trazido à sua vida. Ela o levaria ao limite da paciência dele, forçando-o a pagar por tudo.
Victor voltou com as compras e o almoço. Ao entrar na cozinha, a frustração o atingiu. Rayra não havia mexido um dedo, o balcão estava sujo e a louça do café da manhã continuava na pia. Ele sabia que, se não fizesse, a sujeira ficaria ali, pois ela não lavaria só por teimosia, mas o ambiente o incomodava.
Com um suspiro pesado, ele começou a procurar uma faxineira no celular para resolver a questão doméstica. Depois de agendar o serviço, ele limpou rapidamente a cozinha, arrumou as compras e colocou o almoço na mesa.

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