Victor passou o dia todo fora, mergulhado em planos, negócios. No horário do almoço, Victor não conseguiu ligar, pois estava em uma reunião tensa com familiares. Em vez disso, ele parou por um momento e enviou uma mensagem de texto rápida para o celular de Rayra.
"Pedi para o porteiro subir seu almoço! Fiz um pix ai, compra o que quiser!"
Ele estava cumprindo a promessa de prover, mantendo Rayra segura e financeiramente independente sob a custódia dele.
Rayra, que estava no sofá assistindo, pegou o celular. Ela leu as mensagens e a notificação do banco. Victor podia ser um manipulador, mas ele era consistente e confiável em sua nova função.
Ela almoçou, decidiu ligar para marcar a consulta com a psicóloga. Pensou que se iria usar o tempo para se curar e para planejar, precisava de todos os seus recursos e pertences.
Ela ligou para Lari, sua colega de república. Pediu um favor enorme, explicou a Lari que Victor estava bancando sua recuperação e que ela precisava de todas as suas coisas e conversar, desabafar. Victor não era o único a esconder seus planos.
Rayra marcou a terapia, depois recebeu Lari lá, contou o que pretendia fazer, conversaram muito. Assim que ficou sozinha, ela começou a guardar metodicamente suas coisas no guarda roupas. Ela estava se instalando, se enraizando naquele apartamento, transformando a transação financeira em seu novo lar e seu novo esconderijo. Seu próximo passo seria começar a terapia para reconstruir sua mente e, então, recomeçar.
Ela estava se instalando, como se realmente pretendesse ter uma vida ali, transformando o apartamento de Victor, em algo dos dois.
Victor chegou à noite, trazendo o jantar: espetos de churrasco de uma churrascaria de luxo. Ele entrou, deixando um cheiro agradável de carne.
— Oi, está com fome?
Rayra estava deitada no sofá assistindo, o olhou séria.
— Oi, sim. Estou.
Ele a serviu ali mesmo, na sala, foi colocando o prato na mesinha de centro. Em seguida, ele foi tomar banho. Rayra percebeu que ele estava mais sério e calado do que o normal. Ele mal a olhou e o sorriso havia desaparecido. Ela ficou curiosa com a mudança de humor, mas manteve o silêncio.
Após o banho, Victor foi para o escritório e passou horas lá, envolvido em ligações e papéis. Rayra assistiu até tarde, sentindo-se incomodada com a distância dele.
Ela foi dormir de madrugada, no quarto. Na manhã seguinte, ao acordar, percebeu que Victor havia dormido no sofá, um sinal claro de que ele estava a evitando ou tentando respeitar demais o espaço dela.
Rayra estava cansada do teatro de não ajudar em nada, mas a recuperação era sua prioridade. Ela tomou café e decidiu que precisava do quarto para o dia agitado que teria.
Foi até a sala e sentou-se na beirada do sofá, séria.
— Victor, levanta. Vai deitar na cama. — Sua voz era direta.
— A enfermeira vai vir mais cedo, e eu vou na psicóloga hoje. Você não pode ficar aqui.
Victor abriu os olhos, com o rosto amassado pelo sono desconfortável. Ele a olhou, com a surpresa misturada com cansaço.
— O sofá não estava tão ruim assim. — ele falou, tentando se alongar.
Ela falou encarando a janela.
— Eu não quero que você durma na sala. Vai deitar.
Ele sorriu, um sorriso genuíno de quem havia acabado de receber uma ordem que era também um pequeno convite.
Victor se virou no sofá, ainda sonolento. A voz de Rayra, embora séria e direta, era um comando que ele estava ansioso para obedecer.
Ele se levantou, mas parou ao lado dela. Acariciou a bochecha dela, com o sono ainda pesado em sua voz.
— Você está bem, Ray? Mesmo? — ele perguntou, genuinamente preocupado com a jornada da terapia.
Victor sabia que ela estava lutando. Ele pegou a mão dela e a segurou.
— Lembra do que eu te falei sobre a terapia? — Ele a olhou nos olhos, com a expressão séria e sincera.
— Quero que você saiba que você sempre pode conversar comigo sobre qualquer coisa. Não precisa esperar a sessão. Se quiser falar sobre o Dan, sobre o que aconteceu, sobre o dinheiro, ou até mesmo sobre mim, pode falar.
— Eu não sou seu psicólogo, mas eu sou a pessoa que vai estar aqui te ouvindo. Não guarda nada.
Ele lhe deu um beijo suave na bochecha e finalmente se dirigiu ao quarto.
— Vou deitar um pouco.
Victor deitou-se por apenas uma hora, mas acordou com a mente totalmente ligada em suas pendências. Ele se arrumou em silêncio. Pensando em como fazer outra proposta para Rayra.
Seu foco estava em combater o caos externo enquanto Rayra focava na cura interna. E por isso, ele começou a mentir, para a irmã, escondendo que estava com Rayra lá. Rayra estava recebendo a enfermeira, Victor saiu rapidamente, falou com as duas e disse que logo voltava.
Rayra tomou banho, se arrumou para ir a terapia, e foi de uber sozinha, quando ele voltou para casa, e não a encontrou, começou ligar, mandar mensagens, ela logo respondeu dizendo que havia terminado a terapia e ia embora.
Ela saiu da primeira sessão de terapia visivelmente abalada. Seus olhos estavam vermelhos e seu rosto, ainda pálido, tinha a expressão de quem havia acabado de travar uma batalha emocional. Assim que ela entrou, ele falou levantando do sofá.
— Como foi? — ele perguntou, com a preocupação real em sua voz.
Rayra sentou-se, tirando o cardiga. — Foi... horrível. Estou triste e confusa. Ela sugeriu que eu recorresse a remédios mais fortes, tarja preta, mas eu não quero.
Rayra notou que o celular de Victor tocava várias vezes, na mesa da cozinha. Ele não atendeu e guardou o celular.
— Você precisa de tempo.
A atitude evasiva alimentou a desconfiança dela. Ela notou que o apartamento estava impecável. O cheiro de produtos de limpeza estava forte. A louça na pia havia desaparecido, e o chão brilhava.
Antes que ela pudesse sequer perguntar sobre a mudança, Victor se antecipou:
— Contratei uma faxineira. Ela virá duas vezes por semana. Você precisa focar em descansar, não em tarefas domésticas.
Rayra o olhou engolindo o choro acumulado na terapia. A organização e o cuidado dele, misturados com os traumas dela. Ela foi direto ao ponto que a corroía, a ferida que antecedia o tiroteio.

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