Miranda cumpriu mais um dia de trabalho recebendo olhares de julgamento, deboche, com a rotina de limpeza e o cheiro de desinfetante marcando suas horas. O dia se arrastou, e o pensamento de Peterson, do cartão e do bilhete, persistia como um incômodo sutil, mas ela o manteve à distância. Ao final do expediente, ela pegou seu ônibus de sempre, misturando-se à multidão cansada que voltava para casa.
Ao virar a esquina da rua de sua casa, o coração de Miranda deu um pulo. Parado bem em frente à sua pequena moradia, havia um carro grande, utilitário, com um brilho de luxo que destoava completamente do ambiente. A cor preta e o tamanho imponente fizeram seu estômago gelar, pensou o óbvio, que era Peterson. Ela se aproximou, com o passo lento e hesitante, com a apreensão tomando conta. Já mentalizava as palavras que usaria para dispensá-lo mais uma vez, pronta para enfrentar a arrogância que sabia que viria.
A apreensão de Miranda se transformou em uma estranha mistura de surpresa e ironia quando a porta do carro se abriu. De dentro, desceu um senhor grisalho, de aproximadamente 50 anos, com uma postura formal, mas vestindo uma roupa casual impecável. Ele sorriu para ela, com um sorriso discreto e profissional.
— Olá, Miranda. Sou o seu motorista, segurança, quebra galho. — disse o homem, com a voz calma e educada. — E vou te acompanhar a partir de agora. Mas antes, ele quer falar com você.
O senhor grisalho tirou um celular do bolso e, com um toque rápido, iniciou uma chamada. Miranda não conteve o riso, um riso alto e cheio de deboche.
— Aí, aí, o seu patrão enlouqueceu? — ela questionou, balançando a cabeça. — Segurança? Pra quê?
O celular do segurança foi colocado no ouvido de Miranda, e a voz de Peterson preencheu o silêncio.
— Olá Mimosa, boa noite.
— Que loucura é essa? Esse homem no meu portão? — ela perguntou, com confusão e irritação evidentes em seu tom.
Do outro lado da linha, Peterson começou a rir, um som carregado de uma estranha ansiedade.
— Eu sou louco, Mimosa. Mas isso você já sabe — ele disse, a voz ganhando um tom mais sério. — Vou viajar daqui a uma hora, e quero levá-la comigo. Vinte e quatro por sete.
Miranda franziu a testa, sem entender a dimensão da proposta.
— Do que está falando? Tenho uma vida, um trabalho.
Ele continuou falando ansioso.
— Quero você à minha disposição, vinte e quatro horas por dia, por sete dias. Vou te levar à praia, a restaurantes, a lojas. Vou comprar tudo o que quiser. Não vão existir limites para você gastar. Em troca, bom, será minha! Totalmente e exclusivamente. Durante esse período!
Miranda sentiu um arrepio, seu estômago revirou. A proposta de Peterson era absurda, ousada, e a deixou em um estado de confusão e medo. No entanto, a curiosidade a puxava.
— Não posso, e o meu trabalho? — ela conseguiu balbuciar, com sua voz incerta. — Vou devolver seu cartão! Isso é loucura.
Do outro lado da linha, Peterson esperava o aviso do motorista da limousine, com a tranquilidade em sua voz era quase irritante.
— Não sei sobre seu trabalho, Mimosa. — ele respondeu, com um tom de quem não se importava. — Essa é a graça. O problema é seu. Quero você, muito! Vinte e quatro, por sete. É um fetiche, meu!
Sua voz se tornou mais suave, carregada de uma promessa perigosa.
— Vou te fazer ter a melhor semana da sua vida.
A voz de Peterson, com sua promessa de uma semana inesquecível misturada ao descaso por suas preocupações, balançou Miranda. A tentação do luxo era inegável, e a realidade de sua vida simples pesava. Ela respirou fundo, com uma mistura de resignação e um pingo de curiosidade no que viria.
— Até posso me contentar com pouco, mas isso não significa que vou ficar feliz. Com presentes e sei lá o que. — respondeu ela, com a voz em um sussurro cansado, mas com uma ponta de desafio. Então, em um ato que a surpreendeu, ela cedeu. — Vou me arrumar. Tomar banho!
Do outro lado da linha, Peterson não escondeu a satisfação em sua voz, que agora soava não apenas vitoriosa, mas também desafiada.
— Então, te farei ter momentos felizes. Eu prometo! — Ele fez uma pausa, com o tom se tornando mais direto e organizado. — Seu carro chegará em quinze minutos. Não precisa trazer nada, apenas seus documentos. Vamos comprar tudo amanhã. Roupas, calçados, acessórios, tudo.
Eles se despediram. "Você é louco", ela disse. "E você adora", ele respondeu, com um sorriso imenso no rosto.

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