Ele percebeu o tom de voz e a postura de Miranda, notando que ela estava realmente brava. Peterson se aproximou, com sua mão subindo para a garganta dela, segurando-a suavemente, mas com firmeza. Ele começou a distribuir beijinhos no pescoço de Miranda, com a voz baixa sussurrando em seu ouvido:
— A intenção é justamente sair da realidade, se não, qual o sentido disso? Hein? Relaxa um pouco, Mimosa.
Miranda sentiu um arrepio percorrer seu corpo com a proximidade de Peterson e a intimidação velada em suas palavras. Baixou o olhar por alguns instantes, tentando controlar a respiração descompassada. Quando o levantou, seus olhos cruzaram com os de Victor. Ele estava a observando e sorriu, um sorriso que parecia ter um quê de deboche. Miranda sentiu-se ainda mais constrangida e apreensiva com a presença dele ali, estava com receio de ele contar algo do encontro a Peterson e ele não gostar.
Quando a lagosta de Miranda foi colocada à sua frente, ela ficou olhando para aquele bicho estranho e grande com os olhos arregalados, completamente sem entender. Em sua mente, "lagosta" era um espetinho ou porção de siri frita. Ao lado dela, Peterson recebeu seu salmão grelhado. Ele notou o semblante confuso de Miranda e, com um leve sorriso divertido, perguntou:
— Tudo bem? Tudo certo com o pedido?
Miranda olhou para Peterson, com a voz tensa e baixa, quase um sussurro.
— Eu achei que era outra coisa. — disse, com os olhos fixos na lagosta à sua frente. — Não sei comer isso. Desculpa. Eu não...
Peterson sorriu, realmente achando graça da situação.
— Que outra coisa? — ele perguntou, com um tom divertido na voz.
— É só comer a carne com o garfo. Experimenta.
Por sorte, a lagosta já estava aberta. Miranda pegou os talheres, com as mãos trêmulas de nervosismo, consciente de que não dominava a arte de usar garfo e faca com destreza, ainda mais em um ambiente tão formal. Miranda hesitou, ameaçando apenas remexer a comida no prato. Olhou para Peterson com os olhos suplicantes, largou o talher e o tocou sutilmente na perna, por baixo da mesa.
— Não quero. Comer isso! — ela sussurrou, quase inaudível.
Peterson, sem rir agora, percebeu o desespero dela.
— Tudo bem! — ele respondeu em um tom calmo.
Ele então começou a oferecer o prato às pessoas na mesa, dizendo que Miranda havia mudado de ideia. Em instantes, o prato de lagosta foi "resgatado" da frente de Miranda por alguns dos presentes na mesa, que pegaram pedaços rindo sobre o quão caro e delicioso era. Peterson chamou o garçom.
Victor, que estava olhando o cardápio, sabia que Miranda não pertencia àquele mundo. Tentando ser gentil, ele mostrou a parte do cardápio que ela não tinha visto, apontando para algumas opções mais simples.
— Eu vou pedir pizza. Não gosto de peixe, frutos do mar. — ele disse, com a intenção de fazê-la se sentir mais à vontade para pedir algo que conhecia.
Miranda sorriu sutilmente para Victor, aliviada com a sugestão. Ela rapidamente encontrou as opções mais comuns no cardápio e pediu uma pizza de marguerita. Enquanto aguardava seu pedido, todos na mesa começaram a comer e a conversar sobre assuntos que estavam completamente fora de sua realidade. Marcas de luxo, viagens exóticas, investimentos… Miranda sentiu-se como uma observadora em um mundo que ela não conseguia sequer compreender, muito menos participar.
Peterson, enquanto comia seu salmão, virou-se para Miranda.
— Peça uma bebida, Mimosa. Pra você se soltar um pouco.
Ela o olhou, um ar cínico e incomodado em seus olhos.
— Você nem precisa beber. — ela retrucou, com a voz carregada de ironia.
— Já é solto demais naturalmente.
Peterson pareceu ignorar o comentário, ou talvez apenas achou que Miranda estava com vergonha. Ele continuou jantando tranquilamente. Pouco depois, o prato dela chegou: uma pizza suculenta com bordas recheadas. Miranda olhou para os talheres, uma faca e um garfo, e tentou imitar Peterson, que estava mais perto dela, segurando-os com uma certa formalidade.
Quem estava observando mais de perto percebeu nitidamente que ela não sabia comer pizza de garfo e faca. Victor, que não perdia um movimento, notou a hesitação dela.
— Eu prefiro comer com a mão. — Victor disse, com um sorriso acolhedor. Ele pegou um pedaço de sua própria pizza e começou a comer sem cerimônia, deixando Miranda à vontade para fazer o mesmo.
Peterson apenas lançou um olhar de julgamento a Miranda e Victor, imaginando como ela poderia não saber usar os talheres básicos em um ambiente como aquele. Não disse nada, porém. Durante o jantar todo, Miranda permaneceu quieta, focada em sua pizza. Comeu a mini pizza inteira, pediu mais um suco e, quando terminou, avisou a Peterson que iria ao banheiro lavar as mãos. Ele apenas acenou, dizendo que tudo bem.
Enquanto Miranda estava no banheiro, retocando o batom e lavando a boca, uma das moças que estava na mesa do jantar entrou. Ela sorriu simpática para Miranda e, sem mais delongas, deixou sua bolsa na bancada, na frente de Miranda.
— Preciso me preparar para a festa. — A moça disse, já seguindo para uma das cabines.
Miranda ficou esperando, com a curiosidade despertada pelo comentário da moça.
— Que festa? — Miranda perguntou, com a voz um pouco hesitante.
A moça saiu de uma das cabines, já rindo e com um brilho no olhar.
— Você vai né? Ai, estou tão ansiosa! — ela disse, ajeitando os cabelos. Virou-se para Miranda, um sorriso no rosto. — Você também é do Job?
Miranda sentiu um nó na garganta. Nervosa e séria, ela respondeu.
— Não.
A moça soltou uma risada debochada, ignorando a resposta de Miranda. Pegou um saquinho pequeno de dentro da bolsa e tirou um comprimido colorido.
— Preciso de um doce para trabalhar direito. — ela disse, e engoliu o comprimido sem hesitar. Ofereceu, disse que ia deixar ela super a fim de curtir. Miranda apenas sorriu, confusa, agradeceu e saiu do banheiro com uma nova e perturbadora conclusão. Em sua mente, todas aquelas mulheres ali eram prostitutas, não muito diferentes dela, afinal.
Todos já estavam se levantando e a conta já havia sido paga. Peterson estava um pouco afastado, conversando e rindo com a moça com quem ele estivera flertando durante o jantar. Miranda se aproximou de Peterson, com o rosto sério.
— Posso conversar com você? — ela perguntou, com a voz baixa.
A moça continuava muito perto, mexendo no celular, mas claramente prestando atenção. Peterson olhou Miranda fixamente, com um sorriso enigmático nos lábios.
— Sim. O que foi? Tudo bem? — ele respondeu.
Miranda balançou a cabeça negativamente, desistindo da ideia.

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