Quando tiraram a sedação, Rayra sentiu a confusão tomar conta de sua mente. A visão turva e as vozes abafadas eram as únicas coisas que preenchiam o seu mundo. Sua garganta estava arranhada, os lábios secos. Ela queria entender o que estava acontecendo, mas não conseguia. A voz de Victor, suave e cheia de alívio, a fez querer se levantar.
— Ray, você consegue me ouvir?
Ela tentou falar, mas a garganta não respondeu. A dor em seu corpo e cabeça a fez se ge mer, e ele rapidamente a segurou.
— Calma, você está no hospital. Eu estou aqui.
Ela tentou sussurrar:
— O que...
Ele adivinhou sua pergunta.
— Você caiu da escada. Está no hospital há duas semanas, mas está tudo bem, os médicos disseram que você vai se recuperar.
— Foi um susto imenso.
A mão dele segurou a dela com carinho, sentiu uma pontada de culpa, pena. Ela o olhou nos olhos, procurando por algo que a fizesse entender o que tinha acontecido.
— Foi um acidente, Ray. Não se preocupe. — ele disse, com a voz embargada.
— Eu fiquei aqui o tempo todo, que pude.
O sorriso dele foi sincero, mas ela não sentiu a sinceridade de suas palavras. O ar pesado do hospital se tornou mais leve, para ele, e Rayra se sentiu muito mal, desconfortável, lembrando da discussão deles.
Nos dias seguintes ao despertar, sua voz foi voltando aos poucos. A cada palavra, parecia travar uma batalha contra a fraqueza que dominava seu corpo. Quando finalmente conseguiu falar com mais firmeza, olhou para Victor e, com os olhos marejados, pediu desculpas.
— Eu atrapalhei sua vida... não precisava ficar aqui por mim... — murmurou, virando o rosto para o lado.
— Eu vou ficar bem sozinha, você não precisa mais vir...Sei que tem suas coisas, o trabalho.
As palavras saíam entrecortadas pela emoção, carregadas pelo ressentimento da briga que haviam tido antes da queda. A lembrança ainda doía, e junto dela vinha a sensação amarga de culpa, como se todo aquele sofrimento fosse apenas castigo por seus erros.
Ela começou a chorar, sentindo-se um peso, odiando-se por estar frágil, dependente, deitada naquela cama com o corpo marcado pelos machucados.
Victor, porém, se aproximou ainda mais e segurou sua mão com firmeza. A voz dele, grave e cansada, mas carregada de convicção, ecoou no quarto:
— Você não vai passar por isso sozinha. Esquece essa ideia. O que importa agora é você se recuperar.
— É minha obrigação, como seu patrão, garantir que você esteja segura e receba todos os cuidados necessários.
Ela se calou. As lágrimas escorriam, mas não respondeu nada além de um sério “obrigada”. Sentia-se diminuída, como se fosse apenas um fardo a ser carregado. Não encontrou forças para argumentar. Apenas fechou os olhos, deixando que a presença dele preenchesse o silêncio pesado do quarto.

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