Rayra levantou-se devagar, ainda com um sorriso nervoso no rosto. Tentou transformar em piada, mas por dentro o coração estava pesado. “Se ele soubesse que eu não posso ter filhos...” pensou, e o nó em sua garganta apertou ainda mais. Nunca teve coragem de contar aquilo para ninguém, muito menos para ele. Era uma ferida sensível demais, guardada a sete chaves.
— Você é muito intenso, Victor... — disse, rindo sem graça.
— Está passando por um momento difícil. Quando clarear as ideias, quando estiver em menos conflito consigo mesmo, com seus sentimentos, com o seu modo de se relacionar... você vai refletir e vai perceber que isso é uma ideia sem pé nem cabeça.
Victor ficou calado, apenas a observando, mas ela continuou, mais firme:
— Filho é coisa séria. É para a vida toda. Com quem você tiver um filho, vai estar ligado a essa pessoa para sempre. Não tem nada mais lindo no mundo do que gerar um filho no amor. No amor verdadeiro. Não por carência, não para tampar um buraco ou preencher uma falha na vida dos pais.
Ela respirou fundo, sentindo o peso de suas próprias palavras.
— Um filho tem que nascer de um sentimento puro, não de uma fuga. Uma escapada, um vacilo.
Por dentro, Rayra lutava contra as próprias lembranças, o segredo que não tinha coragem de compartilhar. O olhar dela se desviou, e a piada desconfortável de antes se dissolveu em um silêncio tenso.
Victor permaneceu sério, pensativo, como se cada palavra dela tivesse se cravado nele.
Ele permaneceu em silêncio por alguns instantes, absorvendo as palavras de Rayra. Depois, com a voz calma, mas firme, disse:
— Eu não pretendo mudar de ideia. Porque, sinceramente, eu não acho que vou ter um filho da maneira convencional... um filho gerado no amor.
Os olhos dele se estreitaram, procurando os dela.
— Você se assusta com o meu jeito? Com a minha intensidade?
Rayra ficou de pé diante dele, ereta, quase desafiadora, mas a voz saiu suave, carregada de sinceridade.
— Eu me assusto um pouco, sim. Mas o que mais me assusta não é você. É saber que eu não sou capaz de corresponder a isso. Nem com você, nem com ninguém.
Os olhos dela marejaram, mas não desviaram dos dele.
— A minha vida me danificou demais. Eu sou emocionalmente danificada, Victor. E hoje... hoje eu sei disso. Sei quem eu sou, o que eu sinto e o que eu quero pra mim.
Ela respirou fundo, com o tom se tornando mais reflexivo.
— Um dia você vai chegar onde eu estou. Vai olhar pra trás e perceber que tudo o que está vivendo agora é só uma fase. E que não é a sua melhor fase... e que as suas decisões também não têm sido as melhores.
Victor abriu a boca para responder, mas ela ergueu a mão num gesto suave, pedindo que a deixasse concluir.
— Não estou te julgando, tá? Só... eu já passei por sofrimento demais. Fiquei sozinha mesmo estando com alguém ao meu lado.
— E agora, eu busco outra coisa. Algo tranquilo. Que não me prenda, que me deixe livre... mas não livre o suficiente a ponto de me sentir sozinha. É complicado, eu sei. Talvez um dia eu encontre. Talvez não. Quem sabe.
Um silêncio pesado se instalou no quarto. Então, Rayra sorriu de leve, tentando aliviar o clima, e mudou de assunto:
— Tenho uma novidade pra te contar. Eu consegui um emprego.
Os olhos de Victor se arregalaram, surpresos, como se não esperasse aquela guinada repentina.
Ele estreitou os olhos e logo se colocou contra, balançando a cabeça em reprovação.
— Eu já falei que você não precisa trabalhar.
O tom dele era sério, mas, diante da expressão determinada dela, acabou soltando uma risada nervosa.
— Você tá doida? Sossega. Deixa eu cuidar de você. No pouco tempo que você trabalhou em casa, você cuidou de mim.
— Você foi gentil, me tratou de um jeito que nenhuma outra funcionária me tratou... nem mesmo a minha babá, que praticamente me criou. Mas ela era diferente. Eu quero que você se cuide, se recupere, que fique bem.
Rayra cruzou os braços, firme.
— Não, Victor. Fica de boa. O trabalho não é pesado. Eu preciso. Você sabe que eu não vou sossegar enquanto ficar aqui dependendo de você.
Ele bufou, rindo com ironia.
— Ah, sei, sei... você é muito teimosa. Eu vou amarrar você aqui, vou te prender nessa casa e te colocar pra viver um dark romance comigo. Fica esperta.
— Estou bem longe, de ser normal, você já deve ter notado.

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