Victor foi para a cozinha em silêncio. O apartamento, pequeno e simples, parecia ainda mais quieto enquanto ele preparava a refeição, perdido entre os temperos. Preparou uma sopa leve de macarrão com arroz, deixou o frango grelhar devagar na frigideira e espremia laranjas frescas para fazer o suco. Cada gesto era meticuloso, como se cozinhar fosse, naquele momento, um modo de cuidar e ao mesmo tempo de se acalmar.
Quando tudo ficou pronto, ele montou a mesa simples e foi até o quarto. Sentou-se na beirada da cama e, com a mão quente, começou a acariciar o braço de Rayra.
— Ray? — murmurou, com a voz baixa.
— Levanta pra comer só um pouco.
Ela despertou lentamente, sonolenta, notando as carícias. Olhou para ele com olhos pesados, mas suaves.
— Você se sente culpado, né? — disse, num tom quase de constatação.
— Não foi culpa sua.
Victor sorriu de leve, sem alegria, e assentiu.
— Um pouco. E não deveria?
Virou-se de costas, encarando o chão, com os ombros curvados pelo peso das próprias emoções. Rayra se aproximou devagar, ajoelhando-se atrás dele na cama. Passou os braços ao redor do tronco dele num abraço apertado, com o rosto próximo ao seu ombro.
— Foi um acidente. Não deixa isso te abalar tanto. — sussurrou.
— Eu te ouvia, não sempre, mas às vezes... quando eu estava perdida no coma.
Victor virou levemente a cabeça, surpreso.
— Ouvia?
— Sim. — ela respondeu, começando a beijá-lo de forma afetuosa no pescoço e no rosto.
— Eu te sentia ali, me fazendo companhia, cuidando de mim. Nunca vou esquecer tudo o que você fez por mim. Sempre serei grata.
Victor fechou os olhos. Suas mãos subiram instintivamente para acariciar as dela, que estavam sobre seu peito, deslizando pelos braços dela num gesto lento e triste. Por um instante, o peso entre eles pareceu mais leve.
Então ele se virou de repente, encarou-a de perto e, sem pedir, roubou um beijinho rápido, como quem não consegue mais segurar. Sua voz saiu quase num pedido:
— Fica comigo... só mais hoje. Eu tô precisando muito, Ray.
A frase ficou suspensa no ar, carregada de vulnerabilidade e desejo contido. Rayra não queria, mas ao sentir o olhar vulnerável de Victor, deixou-se levar. Aproximou-se e o beijou de leve no rosto, depois na boca, de forma afetuosa.
— O que aconteceu? — murmurou.
— Quer ficar como?
Victor, desconcertado, a puxou suavemente para seu colo. Ela se acomodou de frente para ele, ajoelhada, com os braços apoiados sobre os ombros dele. Ele acariciava firme sua cintura e o quadril, mas o tom de sua voz entregava uma insegurança rara.
— Ah, nada demais, sei lá... Se não estiver afim, tá de boa. — disse, tentando disfarçar.
— Eu não quero tran sar, sabe? Só ficar mesmo. Perto. Bem perto.
Rayra permaneceu séria, olhando-o diretamente nos olhos.
— Uhum, tudo bem. — respondeu, antes de beijá-lo sutilmente na boca.
— Está querendo um dengo, né?
Ela sorriu de leve.
— Vamos comer e depois assistir um filminho... de terror.
Victor a beijou no pescoço, aspirando o perfume suave dela, e respondeu num tom de desejo e afeto:
— Vamos.
Levantaram-se juntos, ainda próximos, e no corredor ele a abraçou por trás, mantendo o corpo colado ao dela.
— Se não quiser, não... — começou ele, num tom baixo.

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