Nos primeiros dias após a viagem de Victor, as conversas entre ele e Rayra ficaram cada vez mais frias objetivas a raras. Ele respondia de forma educada, mas breve, sem prolongar assuntos, como se não quisesse conversar. Às vezes, demorava horas para responder, outras, simplesmente deixava as mensagens dela sem retorno.
Enquanto isso, Dan se aproximava cada vez mais. Todas as manhãs, ele mandava uma mensagem calorosa:
"Bom dia, linda. Dormiu bem? Tá melhor hoje?"
Rayra sorria sozinha ao ler, sentindo um cuidado leve e genuíno, algo que Victor nunca teve. No meio da semana, foi surpreendida quando o porteiro ligou avisando que havia uma entrega: um bolo caseiro, acompanhado de um bilhete de Dan desejando que ela tivesse um café da tarde mais doce. No dia seguinte, ele mandou o almoço, preparado por sua avó. Depois, chocolates. Em outro dia, um pote de açaí, sabendo que ela gostava.
As conversas entre eles foram ganhando intim idade. Não eram mais apenas sobre saúde ou rotina. Dan falava sobre os filhos, sobre sua vida toda, sobre sonhos e planos. E, em troca, Rayra se via contando coisas de si que não dizia a mais ninguém. Eles também trocavam fotos, ela mostrou o ex, e ele os filhos. Até de dívidas e situação financeira falavam.
Um dia, ele foi direto:
— Eu queria muito te ver. Estou louco pra te dar uns beijos. — escreveu.
Rayra suspirou ansiosa, com os dedos hesitando sobre o teclado.
— Não acho legal você vir aqui. É a casa do Victor, e eu tô sozinha. — respondeu.
Do outro lado, Dan demorou um pouco, mas insistiu, sem rodeios:
— Você tá... tipo, gostando dele?
— Podemos sair.
Rayra respondeu rápido, quase como se quisesse afastar de vez a possibilidade:
— Não. Nem poderia. A gente não tem nada a ver.
— Sair em público, é complicado. Tenho medo do meu ex.
Dan ainda foi mais fundo:
— Mas vocês tão ficando ainda? Você e o Victor?
Ela mordeu o lábio, pensativa. Por dentro, sabia a verdade, mas não queria explicar nada, nem se expor.
— Não. — digitou.
— Rolou só antes de eu conhecer você. E não significou nada.
Mentiu. Do outro lado, Dan acreditou no que quis. Ele já havia notado que Victor andava distante, mas pensava que fosse apenas por causa dos problemas da família, das crianças da irmã, do excesso de trabalho. Nunca suspeitou do que realmente estava acontecendo dentro dele.
Enquanto isso, Rayra sentia que estava cada vez mais dividida, sem perceber que, a cada mentira dita, criava um abismo maior entre ela e Victor.
Victor não tinha viajado. Não havia reuniões, nem compromissos de trabalho. A verdade é que ele havia pedido desligamento da empresa onde estava, uma das melhores oportunidades de sua carreira, sabotando a si mesmo em um impulso que nem ele conseguia explicar. A única parte real de sua história era que a irmã, de fato, estava hospedada na mansão com os filhos. O resto era mentira.
Para não cruzar com Dan e, quem sabe, ouvir algo que pudesse ser repassado a Rayra, Victor parou de frequentar a academia de sempre e passou a treinar em outra, afastada. Fugir parecia mais fácil do que encarar.
Quando completou uma semana de “viagem”, Rayra, já inquieta com o silêncio, mandou uma mensagem ansiosa:
"Victor, você vai me ver ou vai ficar só com a sua família?"
Naquele mesmo dia, ele já estava consumido pelo ciúme. Tinha visto as publicações de Rayra agradecendo os mimos que Dan enviava, bolo, chocolates, açaí. Pior, Dan havia repostado tudo em suas redes sociais, e Victor percebeu algo que o corroeu por dentro. Rayra o seguia. Seguia Dan. Até uma foto dos dois já existia, do dia em que se conheceram. Mas ela nem sequer era seguidora dele, Victor.
A raiva queimava em silêncio. Sua resposta para a mensagem dela veio seca, calculada:
"Ainda vou ficar fora mais um tempo."
Em seguida, mandou um comprovante de transferência de trezentos reais.

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