As palavras de Dan ecoaram na mente de Rayra como um peso que ela não queria carregar. Ela respirou fundo e, magoada, balançou a cabeça.
— Eu acredito em você, Dan… e estou decepcionada. Mas a verdade é que eu não tô no momento de me relacionar com ninguém. — confessou, com a voz baixa.
— Desculpa por não ter falado antes. E, olha, se esse emprego não der certo por causa disso, tudo bem.
Dan fechou os olhos por um instante, sentindo o arrependimento bater.
— Eu não devia ter falado nada do Victor. — murmurou.
— Me perdoa. O emprego não tem nada a ver com isso, você pode ficar tranquila.
— Só não fala nada, pra ele não. Ele é muito rancoroso, capaz de perder a amizade, por sua causa.
Os dois se despediram com um abraço. Rayra sentiu uma vontade imensa de confrontar Victor, de ouvir dele a verdade sobre aquelas acusações, mas havia prometido a Dan que não comentaria nada. Engoliu a angústia e guardou para si.
No segundo dia de trabalho, Rayra acordou cedo e decidiu ir de ônibus. A academia ficava perto, e ela queria se sentir independente. O expediente correu normalmente, atendeu clientes, organizou a recepção, aprendeu mais sobre o sistema interno. Limpou tudo certinho.
Aos poucos, foi conhecendo melhor o pessoal. Dan, como sempre, estava em todos os cantos, cumprimentava alunos, dava instruções, ria alto. Ao lado dele, havia uma moça muito simpática, instrutora também, que parecia ter uma energia contagiante. E mais um instrutor.
No meio da manhã, os dois apareceram juntos na recepção. A instrutora e Dan.
— Ray, tem uma regra aqui. — disse a instrutora rindo.
— Todo funcionário precisa treinar.
Dan entregou uma ficha de treino a ela, piscando de leve.
— Tá aqui o seu. Feito especialmente pra você.
Rayra riu sem graça, mas quando começou a ler, percebeu que os dois haviam montado o treino juntos.
— A gente caprichou porque… olha só o seu corpo, Rayra. — disse a instrutora, elogiando com sinceridade.
— Vai ser fácil chegar nos resultados.
Dan, por sua vez, não perdia a chance de flertar.
— É, com esse corpo aí… daqui a pouco você não vai conseguir passar pela porta da recepção de tanto músculo. — disse, fazendo graça.
— A avaliação, é feita comigo, a sós, lá nos fundos, tá?
Os colegas riram, mas Rayra ficou constrangida. Sorriu por educação, sem saber como reagir. Aquilo a deixava dividida, uma parte dela gostava da atenção, a outra se incomodava com a sensação de que Dan não sabia separar a intimi dade da profissão.
Os dias seguintes foram leves e produtivos. Rayra se adaptava rápido ao trabalho, e Dan encontrava sempre um jeito de se aproximar. Vez ou outra, entrava atrás do balcão só para fofocar sobre os alunos da academia, arrancando risadas dela.
— Vou te deixar com ciúmes das minhas alunas, só pra ver se você me dá uma chance logo. — brincava, com aquele sorriso fácil.
E não parava por aí, continuava a mimá-la com pequenos gestos, chicletes, balas, doces, frutas, bilhetinhos dobrados que ela encontrava no balcão. Oferecia caronas todos os dias, mas Rayra, apesar de tentada, sempre recusava. Ainda assim, os olhares entre eles os entregavam. Era recíproco, intenso, natural. Um interesse crescendo a cada dia. Beijos no rosto e abraçados quando se encontravam também.
Eles se admiravam como pessoas, tinham atração, afinidade, gostos em comum. A primeira semana foi a mais difícil de resistir, como se ambos estivessem à beira de atravessar um limite.
Enquanto isso, Victor já nem falava com Rayra todos os dias. Mantinha a mentira da viagem, convencido de que, quanto mais distante ficasse, menos cairia na “besteira” de se humilhar para ela. O silêncio entre eles se tornava cada vez mais pesado.
No sábado, a academia fechou logo após o almoço. Dan não estava, tinha ido levar a avó às compras e avisou a Rayra, acrescentando com um emoji travesso que compraria um vinho para ela.
Ao sair, Rayra acompanhou a professora até a calçada. Ficaram alguns minutos conversando sobre o movimento da semana e decidiram dividir um Uber. Antes, Rayra comentou, quase num desabafo:
— Eu queria passar em frente à casa do Victor… acho que ele já voltou, e eu precisava ver.
A professora franziu a testa, surpresa.

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