Victor se concentrou na barra, mas seus olhos, de vez em quando, desviavam para Rayra, enviando aquele sorriso cínico que a fez corar.
Mal ele terminou a primeira série, Dan se aproximou, com o semblante descontraído e amigável de sempre.
— E aí, cara! Voltou com tudo, hein? Faz tempo que não te vejo focado assim.
Victor largou a barra com um estrondo, limpou o suor com a toalha e respondeu, com a voz ligeiramente ofegante:
— Não dá para fugir para sempre, né? Voltar aos trilhos é preciso.
Rayra, que estava fingindo arrumar folhetos na recepção, travou no lugar. Sua audição estava aguçada, tentando captar cada palavra. Sentia o coração bater descontroladamente contra as costelas. As mãos suavam frio. Ela imaginava Victor, a qualquer momento, soltando a bomba:
“Ah, a Ray? Eu peguei ela ontem, ela não resistiu.” O pânico era paralisante.
Dan prosseguiu, casualmente:
— Ah, com certeza cara. Falando em voltar aos trilhos... a Ray está de boa contigo? Ela pareceu meio tensa hoje.
— Ficou brava, com seus rolos.
Victor sorriu. Aquele era o momento do jogo. Ele pegou a garrafa, e olhou para Dan, mas lançou um olhar rápido na direção de Rayra, que quase desmaiou de ansiedade.
— A Ray é um desafio, cara. Uma caixinha de surpresas. A gente nunca sabe o que esperar dela, se ela vai topar... ou se vai fugir. — Victor disse, com um tom de voz alto o suficiente para que Dan ouvisse, mas as palavras eram claramente direcionadas a Rayra.
Dan riu, balançando a cabeça.
— É, ela é diferente. Mas é por isso que gosto. Ela não é como as outras que a gente, costuma pegar.
Victor deu um gole na garrafa, com os olhos fixos em Dan, mas o sorriso ainda era cúmplice e ameaçador na direção de Rayra.
— Não mesmo. Mas você tem que ser paciente com ela, Dan. Porque, quando ela finalmente decide ceder... o estrago é grande.
— É pra valer mesmo?
Rayra apertou os folhetos com tanta força que amassou o papel. Aquelas palavras ambíguas—"ceder," "estrago é grande"—eram a prova de que Victor não contaria o segredo diretamente, mas faria de tudo para arruinar o terreno para Dan, usando a intimidade deles como munição. Ela sentiu uma onda de fúria e impotência. O jogo dele estava apenas começando, e ela era o prêmio no meio.
Dan falou que era pra valer, que estava muito afim dela, os dois mudaram o assunto, Dan logo se afastou para dar atenção a outros alunos.
Victor se despediu de Dan com um aperto de mão casual e se dirigiu à saída da academia. Ao passar por Rayra, ele não disse uma palavra, mas a lançou um último olhar por cima do ombro: com o mesmo sorriso cínico de satisfação, misturado com uma promessa silenciosa de que aquilo estava longe de terminar.
Rayra sentiu a porta fechar atrás dele como um alívio temporário, mas o sorriso dele ficou gravado em sua mente, transformando-se em uma ameaça constante.
Ela passou o resto da manhã e toda a tarde em tensão absoluta. Seus movimentos estavam descoordenados na recepção; ela errou o cadastro de dois novos alunos e teve que se esforçar para se concentrar.
O medo de que Victor tivesse plantado alguma semente de dúvida em Dan a fez evitar ele a todo custo. Ela almoçou sozinha em menos de dez minutos, alegando estar com enxaqueca. Quando viu Dan se aproximar da recepção para beber água, ela inventou uma desculpa sobre precisar ir ao banheiro e sumiu para os fundos.
Dan, por sua vez, parecia perceber a esquiva. Ele tentou puxar assunto algumas vezes, perguntando se ela estava melhor da dor de cabeça. Rayra dava respostas monossilábicas, mantendo o olhar fixo na tela do computador.
O dia se arrastou dolorosamente. Rayra sentia-se sujja pelo segredo e pela mentira. O prazer desesperado do dia anterior, que deveria ter sido um final, agora era apenas o combustível para o novo jogo de Victor. A academia, seu lugar de refúgio e trabalho, havia se transformado no palco de sua humilhação silenciosa. Ela só conseguia desejar que o expediente acabasse para poder fugir daquele ambiente sufocante.
Dan insistiu em levá-la para casa, com aquele jeitinho prestativo que já se tornava comum. Rayra tentou recusar, mas ele disse que queria conhecer onde ela estava morando, pelo menos ver direitinho, onde era. Ela cedeu com um sorriso discreto e embarcou no carro com ele.
Durante o trajeto, foram conversando sobre o trabalho, até que ele perguntou sobre a república.
— Lá não pode homem entrar, nem visita de ninguém, na verdade. É bem regrado. — ela explicou.
— E o valor? Tá pagando quanto?
— Quinhentos. Achei ótimo, porque já vem com tudo incluso. Nem preciso de móveis, só minhas roupas e o básico.
Dan assentiu.
— Isso é bom mesmo. Prático. Ainda mais pra quem tá começando de novo.
Rayra ficou em silêncio por alguns segundos, olhando pela janela. A respiração ficou um pouco pesada, os olhos marejaram sem aviso.
— Eu batalhei muito… — começou, com a voz embargada.
— Anos… pra construir a casa onde eu morava. Eu investi tudo naquele lugar, era meu sonho. O terreno era do meu ex-marido, mas eu que construí.
— Cada detalhe, escolhi cada móvel, planejei a cozinha do jeito que sempre quis. Eu não tinha muita coisa, mas aquele canto era meu lar. E agora… eu não tenho mais nada.
— Só duas bolsas.
Dan olhou para ela com empatia e apertou de leve a mão dela.
— Sinto muito, Ray. De verdade. Um dia, você vai ter sua casa de novo. Não desanima não, tá?
Ela respirou fundo, limpou discretamente as lágrimas e tentou se recompor.
— Eu sou muito sozinha, sabe? Às vezes eu não quero conversar, não quero fingir que tá tudo bem. Porque não tá. Eu tô cansada de perder, cansada de recomeçar.

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