O treino de Victor terminou no início da noite. Ele passou a toalha na nuca, bebeu água e caminhou calmamente em direção à saída. Antes de atravessar a porta, lançou um último olhar para Rayra. Um olhar direto, que atravessou como uma flecha. Ele ergueu a mão e acenou de leve.
— Tchau, Ray. — disse com um sorriso que misturava provocação e cinismo.
Ela respondeu com um aceno tímido, sem dizer nada. Ficou com o coração acelerado no peito, com a culpa ainda presente, ardendo cada vez mais.
Victor também se despediu de Dan, com um cumprimento casual, ficou agindo como se nada estivesse acontecendo.
Dan respondeu de forma cordial, como sempre, sem demonstrar nada. Mas seu olhar, rápido e atento, voltou para Rayra assim que Victor cruzou a porta. Ele sentiu algo estranho no ar, mas não disse nada.
Mais tarde, após o expediente… Quando Dan e Rayra saíram da academia. A noite estava agradável, o céu limpo, as ruas com movimento leve.
Dan destravou o carro e abriu a porta para ela, como fazia costumeiramente. Assim que entrou e colocou o cinto, ele ligou o carro, mas não deu partida.
— Você tá bem? — ele perguntou, com aquele tom leve, mas com os olhos preocupados.
— Tô sim — ela respondeu, forçando um sorriso.
— Cansada só.
— Quer passar em algum lugar? Comer alguma coisa? Sei lá… um lanche, uma comida de verdade… — ele sugeriu, gentil.
Rayra hesitou, olhou para a janela. A voz saiu mais baixa do que ela gostaria.
— Obrigada… mas não. Eu não tô com muita enxaqueca. Pra ser sincera, eu quase nem tenho comido esses dias.
Dan franziu a testa, surpreso.
— Como assim? Por quê? Tá tudo bem lá na república? Tá te faltando alguma coisa?
Ela respirou fundo, tentando evitar se emocionar. Não queria demonstrar o turbilhão de emoções, que estava sentindo.
— Não... tá tudo certo. É mais... cabeça cheia mesmo. Cansaço, adaptação, essas coisas.
Ele foi falando, enquanto dirigia:
— Ray, você sabe que pode contar comigo, né? Não precisa passar necessidade ou dificuldade pra não incomodar. Se tiver precisando comprar alguma coisa, qualquer coisa, você me fala. Eu faço questão, de te ajudar.
Ela virou o rosto pra ele, com os olhos marejando.
— Obrigada. Mas não é isso... é só que... às vezes eu não consigo nem sentir fome. Fico tão cheia de coisa por dentro, que parece que não cabe mais nada.
— Você tem sido demais, comigo. Nem mereço tudo isso.
Dan ficou em silêncio por alguns segundos, respeitando o espaço dela. Então, com a voz baixa, disse intrigado:
— Sei como é. Mas não fica assim.
Segurou a mão dela, acariciando.
— Você tá em dúvida? Sobre nós? De uns dias pra cá, eu tenho te sentido distante.
— Bastante fria, comigo. E como não tem rolado nada. Sei lá.
— Você nem me beija, e eu...
Silênciou desconcertado, ela o olhou, surpresa, apreensiva.
— Dan...eu...
— Sinceramente, nem sei se consigo.
Ficou muito emotiva, enxugando os olhos marejados.
Chegaram na frente da república, ela começou chorar, quase contando o que tinha acontecido, para deixá-la distante e fria. Ele ficou confuso a observando:
— A gente se reconstrói, Ray. Com paciência. Com afeto. Sem pressa. E você é forte. Não precisa carregar tudo sozinha. — ele falou, tocando de leve na mão dela.
— Só basta querer. E tipo assim, o gostar, o querer. É algo muito nosso, íntimo, que não depende dos outros.
— Não posso gostar, querer, por nós dois.
Ela sorriu com tristeza, o olhou enxugando as lágrimas:
— Eu espero conseguir... recomeçar. Do jeito certo. É difícil, demais.
— Não é que eu não queira, acreditar em você. Nas suas boas intenções.
Dan ficou quieto, olhando a rua, pensando em como lidar com ela, enquanto o mundo seguia lá fora, os dois estavam ali dentro, cada um com seus fantasmas, seus desejos e suas dúvidas, tentando, de formas diferentes, começar de novo.
Ela abriu a porta, bastante chateada, e disse já descendo:
— É melhor, eu entrar. Obrigada pela carona. Boa noite! Bom descanso!
Ele ficou levemente irritado, enciumado com Victor, com a sensação de que ela estava com ele, por falta de opção. Talvez dividida, e por mais que Dan achasse Victor, muito leviano para relacionamentos. Dan achava que era quase impossível, uma mulher preferir a ele, do que Victor, que tinha ótimas condições e um jeito de sempre conseguir o que queria.
Eles não trocaram boa noite, por mensagens. O dia segunda começou com Rayra chegando à academia mais cedo que o habitual. Ela estava decidida, o que aconteceu com Victor era um erro que ela precisava enterrar. Iria mergulhar de cabeça no que Dan lhe oferecia, na simplicidade e na atenção que ele demonstrava.
Ela ficou ansiosa na recepção, esperando por ele, mas o tempo passava, e ele não aparecia. O pior, Dan não havia mandado o "bom dia" carinhoso que costumava enviar todos os dias desde que se aproximaram. A ausência da mensagem a deixou angustiada e triste, sentindo que talvez sua evasiva no dia anterior tivesse o afastado de vez.

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