Dan ouviu o deboche de Victor, mas manteve a calma. Com um sorriso de superioridade sutil, ele finalizou a conversa:
— Eu não vou perguntar nada, Victor. Não ligo para o que a Rayra fez antes de estar comigo. Para mim, o passado é passado.
— Depois desse fim de semana, a gente vai estar namorando sério, e todo o passado, fica para trás.
Victor soltou uma gargalhada seca e debochada, encarando Dan com desprezo. Vendo que não conseguiria arrancar mais nada, deu as costas, visivelmente bravo. Passou pela recepção e, em um gesto calculado de fúria, nem olhou ou falou com Rayra, marchando porta afora.
Ela, que estava olhando os dois pelas câmeras de segurança e tentando ouvir a conversa, mudou a tela do monitor com as mãos trêmulas. Ela só pôde ouvir alguns fragmentos, mas entendeu o suficiente para respirar aliviada, Dan estava a defendendo, valorizando-a, o que contrastava violentamente com a inveja e o ciúmes que pareciam emanar de Victor.
Dan veio logo em seguida, olhando para a rua e vendo que Victor nem sequer se despediu. Ele encostou no balcão, com a testa franzida.
— Ray, seu amigo está muito irritado. É bem capaz que ele te procure e tente criar alguma intriga entre nós. Fica esperta.
Rayra ficou apreensiva, com o alívio sumindo de repente.
— Eu não vou dar oportunidade. — Ela se inclinou, sussurrando.
— Ele falou algo de mim? Tentou prejudicar o nosso lance?
Dan hesitou por um segundo, olhando para o lado.
— Ah, só deu a entender que vocês... sei lá. — Ele fez uma pausa curta, deixando a dúvida pairar, mas logo retomou a compostura.
— Ray, eu não sou ciumento sem motivo, nem sou hipócrita. Só gosto das coisas certas. O que aconteceu antes de nós... deve ficar onde está, no passado.
Rayra ficou séria e pensativa, olhando-o fixamente nos olhos. A postura de Victor a assustava, mas a filosofia de Dan a confortava.
— Uhum, eu penso igual. Mas depois a gente conversa, tá bom? — Ela disse, adiando a conversa inevitável, mas selando seu compromisso com ele.
Dan a beijou sutilmente na boca, concordando com a pausa, e voltou ao trabalho com um sorriso leve, mas com uma pulga atrás da orelha. O passado de Rayra havia acabado de bater à porta, trazido pelas provocações de Victor.
As horas finais de trabalho se arrastaram, com Rayra e Dan agindo em perfeita sintonia, como o casal que o resto da academia já reconhecia. O alívio de Dan por Rayra não ter sucumbido ao drama de Victor e a determinação dela em seguir em frente solidificaram a união. Fecharam a academia juntos, um ritual prático e íntimo que simbolizava a construção de um futuro a dois.
Ao saírem, eles foram fazer compras, ele pagou tudo, logo pegaram a estrada e a sensação de alívio por deixar a cidade, o trabalho e, principalmente, a influência de Victor para trás, foi imediata.
A viagem começou animada, com música baixa e conversas sobre a rotina de treinos, ele estava cheio de planos para ela. Rayra olhava pela janela, observando o asfalto dar lugar à vegetação, sentindo o nó em seu estômago afrouxar a cada quilômetro percorrido. Dan, ao volante, parecia muito tranquilo e totalmente focado nela, a acariciando enquanto dirigia.
O destino era um charmoso hotel fazenda isolado, longe de qualquer sinal de fofoca ou civilização urbana. O chalé deles era rústico, envolto pela natureza, prometendo uma intimidade e paz que Rayra necessitava desesperadamente.
Quando já estavam na estrada de terra que levava à propriedade, Dan quebrou o silêncio confortável, com sua voz baixa e calma, mas carregada de seriedade.
— Ray. Eu queria que este fim de semana fosse perfeito. Sem sombras.
Ele apertou a mão dela que estava sobre a perna e a olhou rapidamente.
— Sei que o Victor te deixou nervosa hoje, e sei que ele tentou plantar veneno. Eu não me importo com o que aconteceu no seu passado, de verdade. Mas se existe algo sobre nós... algo que você sente que eu deveria saber para começarmos do jeito certo... este é o momento.
Dan fez a pergunta não como uma acusação, mas como um convite suave para a honestidade total, olhando-a com uma paciência que Victor jamais demonstraria. Ela sentiu o coração acelerar. A verdade estava ali, pairando entre os dois, no ar fresco da noite.
O silêncio após a pergunta dele era esmagador. Rayra apertou as mãos, sentindo o calor da confissão subir por seu pescoço.
— Dan, eu... eu tenho. — Sua voz saiu baixa e trêmula, carregada de culpa.

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