A voz de Rayra, carregava agora uma raiva gélida.
— É, estou muito feliz. E sabe o que mais? Eu devia denunciar você. Isso é um crime, Victor. E não é a primeira vez que você faz isso, tenho certeza.
— Você é doentte, repulsiivo, tenho nojjo de você. O Dan não quis falar mais nada sobre isso, mas eu quero saber o nome. Quem fez essa cachorrada com você?
Victor ouviu a ameaça, o silêncio do outro lado da linha era de quem estava em encrencado. Ele sentiu o impulso de contar a verdade, de se justificar, mas pensou no escândalo que a revelação completa causaria a ela.
— Não importa, Rayra. Eu fiz. Você estava comigo na festa. — Ele engoliu em seco e mudou de tática, indo para o terreno que ele dominava: dinheiro.
— Quanto você quer para esquecer o que aconteceu? Sei que precisa de grana.
— Vamos encerrar o assunto. Cinco mil? Dez? Quinze? Tenho certeza que me perdoar você nunca vai mesmo.
O silêncio foi a resposta. Ele continuou, com a voz ficando surpreendentemente baixa e triste.
— Quer saber? Você estava certa desde o começo. Nós nunca iríamos nos apaixonar ao mesmo tempo. Eu nunca seria o cara que iria te conquistar, sendo quem eu sou. Sem máscaras, sem me moldar para caber na sua vida.
Rayra, que estava ouvindo tudo, começou a chorar de verdade, não mais por fingimento. A tristeza da confissão dele se somava à humilhação da proposta. Ela respondeu, com a voz embargada pela dor e pela indignação.
— Então tudo se resume a dinheiro? Quer saber o preço da minha dignidade?
Victor não teve chance de responder. Rayra desligou a chamada, segurando o telefone e a dor. A gravação da colega de quarto tinha o som da confissão de Victor e o preço de seu silêncio. O jogo havia terminado com ele, e ela estava sozinha com o peso de duas verdades insuportáveis.
Rayra vestiu uma calça jeans, uma blusa de frio e os tênis, o uniforme da sua nova missão. Seu coração batia acelerado, mas a decisão estava tomada, ela precisava da prova contra Dan. Com a desculpa do mal estar, ela mandou uma mensagem para Dan avisando que estava indo à academia para pegar um remédio que havia esquecido no armário. Ela enviou o aviso apenas quando já estava lá dentro, correndo contra o tempo.
Aproveitando o silêncio do lugar, Rayra sentou-se na cadeira do escritório e ligou o computador de monitoramento. Com a experiência de quem trabalhava ali, ela procurava nas gravações das câmeras a conversa dele com Victor, determinada a ouvir o áudio, da conversa deles, para ter a prova irrefutável do que fizeram. O ponto onde ela estava sentada era um ponto cego para a câmera principal, garantindo sua privacidade.
Dan demorou um pouco para ver o recado. Ao lê-lo, ele não suspeitou da mentira da enxaqueca, ficou em tentação. Ele pensou em surpreendê-la, transformar a academia em um motel improvisado para selar o novo namoro. Ele deixou os filhos com a avó e se dirigiu à academia, entrou sem fazer barulho.
Ao entrar no corredor que ia para o escritório, Dan viu Rayra mexendo em seu computador. Achou a cena imediatamente estranha e parou na porta, com a gentileza sumindo de seu rosto.
— Ray? O que está fazendo? — perguntou, com a voz desconfiada e baixa.
Rayra deu um salto na cadeira, assustada. Ela gaguejou, forçando a voz.
— Oi! Nada. Vi um cara estranho na rua! Fiquei com medo, vim olhar as câmeras...
Dan se aproximou, envolvendo-a em um abraço por trás que era mais possessivo que afetuoso.
— Hum, só isso mesmo? Melhorou? Eu não comprei todos os remédios que você precisava?
Rayra fechou a tela abruptamente e desligou o computador, afastando-se dele.
— Faltou um. Eu tinha aqui. Então…
Ele a segurou pelo braço, com a desconfiança aumentando.
— E cadê o remédio? Já pegou?
Nervosa, ela disse que já tinha tomado e que era melhor voltar para casa. Dan tentou beijá-la, insistindo.
— Ah, vamos dar pelo menos uma rapidinha? Vem aqui. Eu deixei as crianças com a minha avó.
Ela se soltou, séria e rígida.
— Não, eu preciso deitar.
Neste exato momento, o celular de Rayra vibrou e acendeu no bolso da calça jeans. Era Victor ligando. Dan foi mais rápido, pegou o celular antes que ela pudesse alcançá-lo e atendeu, com um tom de quem pegaria uma traição na hora.

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