Felizmente para Scarlett, ela acordou na manhã seguinte em uma situação muito melhor. Claro, estava com muita dor, mas ao abrir os olhos, viu que estava em um luxuoso quarto de hospital, com uma máquina apitando continuamente ao lado da cama.
Ela gemeu, enquanto tentava se sentar, mas de repente sentiu uma mão quente em seu ombro, e piscou, olhando para o lado. Seus olhos nebulosos clarearam lentamente, antes que ela pudesse ver quem era a pessoa sentada em uma cadeira ao lado de sua cama. Logo, deparou-se com o rosto bonito da única pessoa que queria ver: Ryke. A jovem engasgou e tentou sentar-se novamente, mas ele pressionou seu ombro, pedindo silenciosamente que ficasse parada.
Ryke parecia exausto, com olheiras sob os olhos. Apesar de tudo, mostrou a ela um sorriso tranquilizador e a jovem visivelmente relaxou.
"...Tive um sonho muito estranho." Ela murmurou, olhando para as pupilas prateadas dele.
"Ah, é? O que aconteceu?"
"Eu tava me escondendo em uma floresta... Fugindo do perigo, mas você... você veio e me salvou... Na verdade, acho que não foi um sonho. Você me salvou mesmo, não foi?"
"Quase." Ele disse, em um tom triste.
Ryke hesitou, mas finalmente, sua mão se estendeu para acariciar seu cabelo lentamente. Scarlett não afastou-se do toque dele, e até se inclinou na direção dele. Estar com ele era reconfortante, sentia-se segura, mas também não gostou da expressão no rosto dele, uma mistura de raiva e tristeza.
"Foi você que se salvou." Ele disse com os dentes cerrados: "Eu só tava lá por acaso, na hora certa, pra te levar pro hospital."
Ryke enrijeceu, ao lembrar da noite passada. Quando encontraram o corpo de Scarlett naquela ravina, ele realmente pensou que a havia perdido. Era difícil imaginar como poderia sobreviver a uma queda daquelas, ela teve muita sorte.
Ele quase enlouqueceu, quando seus homens lhe disseram que o telefone de Scarlett estava localizado a quilômetros de distância da cidade. Ryke soube imediatamente que não era normal, ela nunca iria tão longe sem contar a ele. Seus homens foram imediatamente instruídos a seguir para o local e ele também foi, logo depois.
Encontraram fracos rastros da van preta na floresta e vasculharam a área, e poderiam facilmente não tê-la visto, escondida atrás de uma pedra e alguns arbustos, mas ela teve o reflexo de atirar uma pedra. Ryke, então, ouviu o leve ruído e seguiu sua direção até encontrá-la, pálida e machucada na terra molhada.
Nenhuma palavra seria capaz de explicar a intensidade da raiva que ele sentiu, mas principalmente dirigida a si mesmo, pois havia falhado em protegê-la.
"Eu tô muito ferida?" Scarlett perguntou em um sussurro, apenas tentando fazê-lo falar.
"Hum... O médico te examinou faz vinte minutos. Você tá bem e tem muita sorte de ainda estar viva, caiu feio e bateu em uma pedra, mas felizmente não quebrou nenhum osso. Vai se sentir fraca e dolorida por um tempo, no entanto. Também vai ter algumas cicatrizes e hematomas. Sinto muito por isso."
"Bem, s-sabe... só tô feliz por estar viva. Mas... e aquelas pessoas? Fui sequestrada por dois homens. Você pegou eles?"
A mandíbula de Ryke contraiu-se visivelmente e ele balançou a cabeça tristemente.
"Não... encontramos o esconderijo e o carro deles, mas só isso."
"Ah não, eles não deveriam ter escapado. Precisam me dizer quem pagou pra fazer isso... E-eu queimei o olho de um deles com uma bituca de cigarro e mordi o lábio do outro. U-um deles se chama Stan. Q-qualquer uma dessas informações pode ajudar a localizá-los?"
"Vou contar à polícia e ver. Já tão trabalhando no caso, mas acho que vai demorar algum tempo pra encontrá-los. A floresta é grande e difícil de procurar. Se ainda estiverem escondidos lá, não vai ser fácil encontrá-los. Além disso, temos fortes razões pra acreditar que são criminosos experientes, muito familiarizados com a área também... Mas vamos pegá-los. A gente tem apenas que ser um pouco mais paciente, mas não tem como deixar isso passar sem punição."
Scarlett deu um sorriso trêmulo, sabendo que ele dizia tudo o que podia para tranquilizá-la. Comportava-se de forma diferente do acompanhante arrogante e rude com o qual estava acostumada. Ela sempre soube que havia um lado gentil nele, é claro, mas era a primeira vez que ele o mostrava tão abertamente. A jovem quase protestou, quando ele parou de acariciar seus cabelos e levantou-se, pois já sentia falta de seu calor.
"O-onde você tá indo?"
"Não muito longe." Ele disse: "Só vou dizer ao médico que você tá acordada. Não se preocupe com nada, tá bom? Apenas descanse, você precisa disso, eu vou cuidar de todo o resto."
Ela assentiu, embora não quisesse que ele fosse, e suspirando, o observou sair pela porta, olhando para o teto. Ela nem havia perguntado a ele a coisa mais importante: como soube onde encontrá-la naquela floresta?
O homem era mesmo salvador? Como estava sempre no lugar e hora certos para salvá-la?
Qualquer pessoa normal teria perguntado, mas Scarlett estava relutante em fazê-lo. De alguma forma, no fundo, não queria desvendar o mistério do Ryke. Só precisava poder contar com ele e fazer muitas perguntas poderia assustá-lo. Talvez fosse melhor, por enquanto, apenas deixar para lá.
Uma enfermeira entrou alguns minutos depois, com o café da manhã. O estômago de Scarlett roncou ao ver café, torradas com manteiga, ovos mexidos e suco de laranja. Estava faminta um dia inteiro. A enfermeira ajudou-a a sentar-se e colocou a bandeja à sua frente.
"Coma devagar." Ela a avisou.
Scarlett assentiu, mas era difícil seguir aquele conselho quando a comida tinha um gosto tão bom e parecia derreter em sua língua. A jovem inalou seu café da manhã e terminou em menos de dez minutos. Estava bebendo água, quando a porta de seu quarto foi aberta novamente, e um médico entrou, sorrindo para ela, que ficou um pouco desapontada ao ver que Ryke não estava com ele. Ele havia ido embora?
"Bom dia, senhora. É bom vê-la acordada."
"Bom dia…."
O médico aproximou-se e verificou seus sinais vitais, parecendo satisfeito, enquanto escrevia em seu bloco de notas.
"Como está se sentindo?"
"Tô com um pouco de dor."
"Tudo bem, isso é normal, considerando a queda que você teve. Vou lhe receitar alguns analgésicos. Fora isso, você tem cortes profundos nos braços e pernas, vai precisar colocar pomadas sobre eles, de manhã e à noite. Seu namorado cuidou disso ontem à noite, tem muita sorte com ele."
"Ah... Hum, obrigada."

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O primeiro beijo do Ryke