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O ÚLTIMO BEIJO... ANTES DO DIVÓRCIO romance Capítulo 16

Curtis Callaway ajeitou o paletó com um gesto firme antes de dar um passo à frente, e o murmúrio no salão se apagou como se alguém tivesse baixado o volume de uma vez. Rebecca, ereta ao seu lado, o olhava com orgulho e emoção contida, enquanto Henry, alguns metros atrás, mal conseguia acreditar no que via.

Curtis apoiou as duas mãos no púlpito e deixou o olhar percorrer o ambiente, observando cada convidado com aquela autoridade natural que sempre tivera; e quando falou, sua voz grave preencheu cada canto do salão.

— Quero agradecer a todos que decidiram apoiar minha filha no relançamento da Callaway Indústrias. — O tom era solene, mas não faltava calor. — Não é todo dia que uma empresa consegue se reerguer depois de dois anos de inatividade, e muito menos com a dignidade que ela lhe devolveu.

Houve um murmúrio de aprovação, alguns acenos e vários aplausos espontâneos. Curtis levantou uma mão e continuou.

— Todos vocês estão cientes da acusação de fraude feita contra mim há quase três anos, acusação essa que foi resolvida a meu favor há poucas semanas. Agora que a empresa recuperou cem por cento dos seus ativos, somados aos múltiplos investimentos no exterior, é hora de retomar nossa posição como líderes dos negócios neste país.

O salão estourou em aplausos, e os flashes das câmeras iluminaram o rosto sereno de Curtis, que mantinha o olhar erguido, como se reivindicasse algo que sempre foi seu.

Henry, por outro lado, sentia o chão se mexer sob seus pés. Estava paralisado, com os cacos do copo ainda ao redor, e quando Curtis Callaway o olhou diretamente — ainda que por apenas um segundo — sentiu o sangue gelar. Era um olhar carregado de julgamentos, como se cada erro que havia cometido ficasse exposto de uma vez só.

Durante a hora seguinte, toda a atenção girou em torno do retorno do magnata. Velhos conhecidos, empresários, políticos e até rivais de outros tempos se aproximavam para cumprimentá-lo, apertar sua mão, garantir que estavam em bons termos com o homem que, ao que tudo indicava, havia voltado para mudar o panorama econômico da cidade.

Rebecca permanecia perto do pai, radiante, agora apresentada como a nova dona da multinacional.

Henry observava tudo de longe. Tinha um nó no estômago e toda vez que tentava se mover em direção a Curtis, alguém o interrompia. Passaram-se minutos, depois quase uma hora. Por fim, respirou fundo, cerrou o maxilar e abriu caminho pela multidão; e quando se viu diante dele, pigarreou.

— Senhor Callaway… preciso falar com o senhor.

O homem o olhou com uma calma desconcertante. Não parecia surpreso, como se tivesse esperado aquele momento. Os convidados, que dado o drama das últimas semanas não esperavam nada de bom, se dispersaram imediatamente e os deixaram sozinhos naquele canto do salão.

Curtis pousou uma mão pesada no ombro de Henry e disse em voz baixa, quase paternal, mas carregada de um tom perigoso:

— Não é preciso, Henry. Homens não falam. Homens agem — sibilou. — E acredite, as suas ações já disseram muita coisa.

Henry engoliu em seco e apertou os lábios, porque não havia como se defender daquelas palavras. A única coisa que restava era admitir a culpa.

— Eu sei que falhei com a Rebecca…

Curtis arqueou uma sobrancelha, como se a justificativa lhe parecesse insuficiente.

— Você fez algo pior — replicou com um sorriso sombrio. — Você quebrou sua palavra comigo.

Henry sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Pensou na mãe, no pai, em Julie Ann… e em como seria impossível… mas e se não fosse…?

Curtis deu mais um passo à frente, e sua voz soou como um sussurro envenenado.

— Se não te acerto a cara aqui mesmo é porque tem gente demais na volta. Mas me escuta bem: se você chegar perto da minha filha de novo, vou afundar essa empresinha de merda que você tem. E depois mando uns amigos muito interessantes que fiz na prisão, que vão se encarregar de te deixar paralítico para que você veja a Rebecca ser feliz, mas de bem longe.

O silêncio de Henry foi absoluto. Não havia nada que pudesse dizer. Tudo o que podia fazer era baixar o olhar, aceitar a ameaça e conter o tremor nas mãos enquanto a culpa e a vergonha ganhavam um significado novo e bastante concreto.

Curtis o deixou plantado ali, se virando para atender a outro grupo de empresários que o cumprimentavam como se nada tivesse acontecido. Henry sentiu falta de ar, como se o salão tivesse encolhido de repente.

O evento continuou até de madrugada. A música voltou, os brindes seguiram, mas para ele tudo não passava de um zumbido distante. No final da noite, Rebecca saiu de braço dado com o pai, sorrindo, feliz como ele não a via há muito tempo. Aquela imagem o atravessou por dentro, porque entendeu que ela havia recuperado tudo o que havia perdido — e era muita coisa.

Quando a viu sumir entre os convidados, Henry ficou parado, com o copo vazio ainda na mão. Mas como um salva-vidas, Camilo apareceu ao seu lado com um sorriso torto e um copo cheio.

— Sabe de uma coisa, mano? — disse, dando um tapinha no ombro dele. — Melhor a gente ir beber.

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