Eduardo e Viviane
Numa manhã em que Eduardo estava concentrado em alguns relatórios com seu assistente, Murilo, a porta do escritório abriu abruptamente sem qualquer aviso da secretária.
Um furacão de salto alto, roupa de grife e provocante, perfume caro, entrou como um furacão pronto para não ser ignorado.
Viviane Teles.
Eduardo ergueu os olhos e por um instante, seu coração pareceu perder uma batida. A caneta em sua mão se imobilizou entre os dedos.
— O que faz aqui? — Perguntou seco.
A secretária apareceu logo atrás, visivelmente aflita.
— Senhor, desculpe… eu tentei impedir, mas ela foi entrando…
Viviane sorriu com arrogância elegante e virou-se para a secretária com um sorriso doce.
— Não se preocupe, Márcia. Você sabe que sempre tive trânsito livre aqui, não é mesmo, Eduardo?
Eduardo a encarou.
Ali estava ela. Linda, sedutora e deslumbrante… a mulher que um dia ele amou.
— Saiam. — disse ele, seco.
Murilo e Márcia trocaram um olhar desconcertado e saíram rapidamente, fechando a porta.
O silêncio caiu pesado no escritório. Eduardo permaneceu sentado, com os olhos frios como aço.
Viviane, por outro lado, sorria. Aquele mesmo sorriso que, anos atrás, o deixava completamente desarmado.
Agora… não mais. Era o que ele dizia a si mesmo.
Ela se aproximou com seu andar sedutor, o mesmo que tantas vezes o fizera esquecer o mundo ao redor. Parou diante da mesa e apoiou as mãos sobre ela, inclinando-se levemente em sua direção revelando mais que deveria pelo decote generoso.
Eduardo não se moveu, apenas observou, o maxilar travado, a veia de sua têmpora pulsando. Seu olhar percorreu o corpo escultural dela, moldado por academia, tratamentos e cirurgias discretas. O vestido justo revelava cada curva daquele corpo escultural.
Os olhos dele subiram devagar. Detiveram-se por um instante do decote generoso, depois na boca pintada de vinho, curvada em provocação. A maquiagem impecável e os cabelos perfeitamente alinhados, sem um único fio fora do lugar.
Sim.
Ela era linda.
Em outros tempos, ele já teria perdido a cabeça. Já teria se levantado, puxado Viviane para si, esquecido qualquer razão. Mas agora…
Sem pedir licença, outra imagem surgiu em sua mente.
Helena.
A beleza simples, natural, serena e sem artifícios. Havia nela uma autenticidade quase luminosa.
Ali, diante dele, tudo parecia… artificial, falso. Eduardo não saberia explicar, mas, naquele momento, Helena lhe pareceu infinitamente mais bonita.
Enquanto ele a observava em silêncio, Viviane interpretou aquele olhar à sua maneira. Como sempre acontecia, ela se sentiu vitoriosa. Eduardo sempre caía a seus pés, e não seria diferente.
— Senti sua falta. — disse, com a voz baixa e envolvente. Então se inclinou mais, oferecendo os lábios.
Eduardo levantou os olhos para os dela.
O que Viviane encontrou ali a fez hesitar por um segundo. Não havia mais calor, não havia desejo. Apenas frieza.
— Por que voltou? — perguntou ele. A voz saiu baixa e afiada como uma navalha.
Viviane piscou, surpresa. Eduardo jamais falou com ela daquele jeito. Antes, ele fazia tudo para agradá-la.
— Depois de todo esse tempo… — disse ela, tentando recuperar o charme — eu esperava uma recepção mais calorosa.
Ela contornou a mesa lentamente e parou ao lado da cadeira dele. Quando se inclinou novamente, com a clara intenção de beijá-lo, Eduardo segurou firme o pulso dela.
O gesto foi rápido e forte, surpreendendo Viviane que arregalou os olhos.
— Como se atreve a vir aqui… — disse ele, erguendo-se devagar — como se nada tivesse acontecido?
O escritório pareceu encolher ao redor deles. O olhar de Eduardo era duro, muito diferente daquele homem que um dia esteve completamente aos pés dela.
Viviane sentiu o aperto firme no pulso e, pela primeira vez desde que entrou naquele escritório, algo dentro dela vacilou.
Eduardo não a olhava como antes. Não havia desejo, nem saudade, nem a devoção quase sagrada de antes. Havia distância e uma frieza que ela nunca viu naqueles olhos negros como a noite.
Ela retirou lentamente o pulso das mãos dele, recompondo a postura com elegância, como se nada tivesse acontecido.
Viviane Teles não era uma mulher que se permitia parecer derrotada, endireitou o vestido e o observou de cima a baixo, analisando-o.
— Eduardo… eu vim porque te amo. — Os olhos de Viviane se encheram de lágrimas. — E para te pedir perdão… por ter te abandonado. Eu me arrependo. Você não faz ideia do quanto eu sofri esse tempo todo.
Eduardo a encarou como se não acreditasse em uma única palavra. O olhar era frio, duro como gelo.

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