Ao longe, na varanda, a figura de Eduardo se destacava contra a luz que já começava a se declinar no horizonte.
Mesmo à distância, Helena sentiu que havia algo naquele olhar impossível de ignorar mesmo à distância.
O som das ondas, o vento, o céu mudando de cor… tudo se dissolveu. Só restaram os dois. Foi então que Eduardo virou e desapareceu no interior da casa.
Helena subiu a escada de madeira. Ao alcançar o jardim, lançou um último olhar para o mar antes de voltar para dentro da casa.
— Eduardo? — chamou, sem muita convicção.
Nenhuma resposta.
O fim de tarde avançava, e a luz do pôr do sol invadia a sala através das paredes de vidro, tingindo tudo com tons dourados e alaranjados. Por um momento, Helena se deixou encantar pela cena, era lindo demais para ser ignorado.
Mas então, um som quebrou a tranquilidade, ouviu a voz de Eduardo. Helena virou-se na direção e caminhou devagar até uma porta, provavelmente o escritório.
— Eu já disse que isso não pode acontecer agora! — a voz dele estava carregada de irritação.
Helena parou imediatamente.
— Não me interessa como vai resolver… resolva. — continuou ele.
Ficou ali por mais alguns segundos, até que o silêncio finalmente tomou conta do outro lado da porta. Helena não ousou bater e foi para a cozinha preparar o jantar.
Ao abrir a geladeira, encontrou um belo corte de salmão. Desde que a situação financeira da sua família havia piorado, ela nem lembrava a última vez que tinha comido salmão.
Retirou o peixe e começou a separar os ingredientes. Decidiu prepará-lo com aspargos salteados e batatas ao murro. Simples, mas elegante.
Enquanto cozinhava, ela se acalmava. Depois de algum tempo, com o prato principal encaminhado, Helena abriu a despensa e a geladeira novamente, pensando na sobremesa.
Sem que Helena percebesse, Eduardo apareceu na cozinha sem fazer barulho, ele ficou observando os movimentos dela tão naturais, como se aquilo fosse comum.
— O cheiro está muito bom.
Helena se virou, levemente surpresa, mas sorriu.
— Que bom que chegou… já ia te chamar.
Ela voltou a se concentrar nos últimos detalhes, enquanto Eduardo se aproximava do balcão. Ele pegou uma garrafa de vinho e serviu duas taças.
Caminhou até ela com as taças e ofereceu uma a Helena, que surpresa, aceitou com um sorriso.
Minutos depois, os dois estavam sentados à mesa.
— Ficou… muito bom — ele levou o garfo à boca, experimentando — Você cozinha muito bem.
Ela sorriu, dessa vez com um pouco mais de confiança.
— Eu disse que gostava de cozinhar.
Por alguns instantes, conversaram sobre o lugar, a brisa que vinha do mar, trivialidades. Então Helena tomou coragem, havia uma pergunta guardada há dias ou talvez desde o início.
— Eu quero te perguntar uma coisa…
Eduardo levantou os olhos na direção dela.
— Como você chegou até mim? Nós nunca nos vimos antes… — fez uma breve pausa, escolhendo as palavras — Com tantas mulheres… mais bonitas, mais preparadas… por que eu?
Por um instante, Eduardo apenas a observou.
— É aí que você se engana. — disse, com calma — Eu já tinha visto você antes.

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