Nos três dias seguintes, Helena e Bruno mergulharam completamente no trabalho.
Visitaram marmorarias, percorreram grandes pedreiras e passaram horas analisando blocos e chapas de rochas ornamentais. Helena avaliava cores, veios, acabamento e resistência com o olhar criterioso de quem enxergava muito além da pedra. Bruno acompanhava cada decisão, impressionado com a segurança e a sensibilidade que ela demonstrava.
Entre uma visita e outra, conversavam durante os trajetos. Aos poucos, o peso que Helena carregava parecia diminuir. Talvez a mudança de ambiente, a rotina intensa ou simplesmente a ausência das lembranças que a aguardavam na mansão ou talvez fosse a companhia.
Bruno não fazia perguntas, não tentava preencher os silêncios e nem forçava confidências. Apenas estava presente. E, curiosamente, aquela presença tranquila lhe transmitia uma paz que Helena há muito tempo não experimentava.
À noite, depois de encerrado o expediente, costumavam jantar no restaurante do hotel.
As conversas deixaram de girar apenas em torno do complexo comercial. Descobriram, quase por acaso, que tinham gostos parecidos. Ambos apreciavam filmes antigos, música clássica e jazz, preferiam viajar para lugares históricos em vez de destinos badalados e compartilhavam o hábito de entrar em livrarias sem a intenção de comprar nada, apenas pelo prazer de caminhar entre as estantes.
— Então você também faz isso? — perguntou Helena, divertida.
Bruno riu.
— Entro dizendo que vou só dar uma olhada... e saio carregando três livros.
Ela sorriu.
— Achei que só eu tivesse esse problema.
As conversas fluíam com uma naturalidade que surpreendia os dois.
Na última noite antes do retorno, o jantar transcorria no mesmo clima leve. Helena ria de uma história que Bruno contava sobre uma viagem desastrosa à Itália quando, de repente, seu sorriso desapareceu.
Ficou em silêncio por alguns segundos, olhando distraidamente para a taça de vinho à sua frente.
Uma constatação, tão simples quanto dolorosa, atravessou seu coração. Ela e Eduardo nunca haviam tido uma conversa assim.
Nunca falaram sobre filmes preferidos ou músicas, sobre sonhos de viagem. Nunca descobriram se gostavam das mesmas coisas ou se eram completamente diferentes.
Durante dois anos de casamento, haviam compartilhado a mesma casa, mas nunca tiveram a oportunidade de se conhecer de verdade.
Bruno percebeu imediatamente a mudança em sua expressão.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou com cuidado.
Helena ergueu os olhos e tentou sorrir.
— Não... não é nada.
Bruno sustentou seu olhar por alguns segundos e percebeu a tristeza silenciosa que voltou a envolver seu semblante.
*****
Os dias que se seguiram ao retorno de Eduardo foram consumidos pelo trabalho.
Depois de quase um ano acompanhando pessoalmente as negociações com o Grupo Walker, havia uma quantidade enorme de decisões aguardando sua assinatura. Reuniões sucediam reuniões. Diretores, gerentes e acionistas se revezavam na sala da presidência para apresentar resultados, revisar estratégias e alinhar as metas do próximo exercício.
Naquela tarde não foi diferente.
A ampla sala de reuniões permanecia em absoluto silêncio enquanto Eduardo conduzia a apresentação. Projetava gráficos, analisava números e distribuía responsabilidades com a objetividade que o tornara respeitado no mundo corporativo.
— As metas para o próximo ano são ousadas, mas contamos com a parceria do Grupo Walker — disse, encerrando um dos relatórios. — Não podemos perder o foco.
Alguns diretores trocaram olhares discretos. A meta era ousada.
— Se alguém acredita que não é possível, este é o momento de dizer.
Ninguém respondeu. Ele fechou o relatório.
— Ótimo. Então espero resultados.
Murilo, sentado à sua direita, fazia anotações rápidas enquanto observava a reação dos presentes. Depois de tantos meses trabalhando ao lado de Eduardo no exterior, aprendera que aquele silêncio significava respeito... e também um pouco de temor.
Gilberto acompanhou tudo na cabeceira da mesa. Enquanto os demais enxergavam apenas o presidente do Grupo Monteiro, ele via o filho.
E, mais uma vez, percebeu o quanto Eduardo havia mudado desde a viagem. Estava ainda mais seguro, mais maduro e estrategista. Ao mesmo tempo, parecia mais magro e abatido como se carregasse um peso.

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