Depois de alguns minutos diante da janela, Eduardo finalmente obrigou a si mesmo a voltar ao trabalho.
Sentou-se à mesa, abriu a pasta que Murilo deixou e começou a analisar os contratos. Os números voltaram a fazer sentido, as cláusulas, os prazos e as garantias.
Na próxima hora, Eduardo conseguiu afastar qualquer pensamento que não estivesse relacionado ao Grupo Monteiro.
Três batidas suaves interromperam sua concentração.
— Entre.
Márcia abriu e entrou no escritório, mantendo-se próxima a porta.
— Senhor Monteiro, O senhor Bruno Lima está aqui. Gostaria de falar com o senhor.
A mão de Eduardo, que segurava a caneta personalizada, enrijeceu instantaneamente e os dedos a apertaram com tanta força que os nós dos dedos ficaram esbranquiçados e seu semblante fechou na mesma hora.
Márcia percebeu e achou estranho. Conhecia os dois havia anos,Bruno era um dos poucos amigos pessoais de Eduardo.
Eduardo levou apenas um segundo para recuperar a expressão habitual.
— Peça para entrar.
— Sim, senhor.
Poucos instantes depois, Bruno entrou na sala. Como sempre, trazia um semblante tranquilo.
— Eduardo. Bom dia.
Eduardo levantou-se apenas por educação.
— Bruno.
Nenhum dos dois sorriu e Bruno percebeu imediatamente a diferença.
Durante anos, sempre fora recebido com um aperto de mão caloroso e até um leve sorriso. Naquela manhã, encontrou apenas a formalidade.
Eduardo indicou discretamente a cadeira diante da mesa..
— Sente-se.
— Não vou tomar muito do seu tempo.
Eduardo apenas aguardou.
Bruno respirou fundo.
— Vim porque não queria que você interpretasse da maneira errada o que aconteceu ontem à noite.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eduardo apoiou lentamente a caneta sobre a mesa.
— Continue.
— Helena voltou comigo porque viajamos juntos a trabalho. O voo atrasou e eu estava com meu carro e eu simplesmente a trouxe para casa. Nada além disso.
Eduardo manteve o olhar fixo nele, impenetrável e indecifrável, era impossível saber o que se passava por sua mente.
— E eu deveria agradecer sua gentileza.
Bruno sustentou aquele olhar sem desviar.
— Achei que fosse importante dizer isso pessoalmente.
Eduardo permaneceu em silêncio por alguns segundos. Quando voltou a falar, sua voz saiu firme.
— Independentemente das condições do meu casamento… — Fez uma breve pausa. — Helena continua sendo minha esposa.
As palavras ficaram suspensas entre os dois. O próprio Eduardo pareceu sentir o peso do que acabara de dizer.
Bruno assentiu lentamente.
— Eu sei. — A resposta veio séria, sem qualquer hesitação. — E justamente por saber disso, jamais faltaria com respeito a você... ou à Helena. Nossa aproximação aconteceu por causa do trabalho.

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