Durante todo o trajeto, o silêncio voltou a acompanhá-los. As luzes da cidade deslizavam pelos vidros enquanto nenhum dos dois encontrava coragem para iniciar uma conversa.
Ao chegarem à mansão, entraram juntos e subiram lentamente a escadaria e caminharam lado a lado pelo corredor do segundo andar.
Quando Helena parou diante da porta do próprio quarto, Eduardo também interrompeu os passos.
Por alguns instantes, apenas se olharam. Havia algo diferente nos olhos de Eduardo naquela noite.
O semblante continuava sério, mas escondia um cansaço ou dor profunda... e uma inquietação que Helena nunca havia visto. Era como se ele travasse uma batalha silenciosa consigo mesmo.
Por fim, Eduardo quebrou o silêncio.
— Boa noite, Helena.
Ela permaneceu imóvel. Havia tantas coisas que gostaria de dizer. Queria, acima de tudo, diminuir aquela distância que existia entre eles desde o primeiro dia de casamento.
Eduardo virou-se para seguir em direção à suíte principal. Foi então que ela o chamou, quase num sussurro.
— Eduardo...
Ele parou e lentamente voltou-se para ela.
— Sim...
A voz saiu baixa, cansada, mas carregava uma estranha expectativa. Os olhos dos dois voltaram a se encontrar.
Por um breve instante, Helena teve vontade de atravessar aquele corredor, abraçá-lo e pedir que, pela primeira vez, não dormissem separados. Mas as palavras morreram antes de alcançar os lábios.
Ela apenas sorriu, com tristeza.
— Boa noite.
Eduardo sustentou seu olhar por mais alguns segundos. Parecia esperar que ela dissesse algo mais, quando percebeu que isso não aconteceria, apenas assentiu e entrou na suíte fechando a porta.
Helena permaneceu parada no corredor por alguns instantes, olhando para a porta fechada. Apenas uma parede os separava, mas, naquele momento, parecia existir um abismo entre os dois.
Naquela noite, deitados em quartos vizinhos, Eduardo e Helena permaneceram acordados por muito tempo.
Cada um em silêncio prisioneiro dos próprios pensamentos.
E, sem que o outro soubesse, ambos desejavam exatamente a mesma coisa: encontrar coragem para atravessar a distância que eles mesmos haviam construído.
*****
Na manhã seguinte, quando Helena entrou na sala de jantar, encontrou Eduardo ainda à mesa, terminando o café.
Ela diminuiu discretamente o passo.
Se na noite anterior ele parecia exausto, naquela manhã voltara a exibir a aparência impecável de sempre. Vestia um terno escuro perfeitamente alinhado, a barba estava feita e os cabelos cuidadosamente penteados. Ainda assim, as discretas olheiras sob os olhos denunciavam que o descanso não havia sido suficiente.
Ao perceber sua presença, Eduardo ergueu os olhos da xícara.
— Bom dia.
— Bom dia.
Helena puxou a cadeira ao lado dele e sentou-se e o silêncio voltou a ocupar o ambiente.
Enquanto se servia de café e torradas com ovos, percebeu, pelo canto dos olhos, que Eduardo a observava discretamente e parecia pensativo.
Foi Eduardo quem rompeu o silêncio.
— Preciso fazer uma pequena viagem.
Helena ergueu os olhos, surpresa. Ele mal havia retornado ao Brasil e já partiria novamente.
— Tenho alguns assuntos importantes para resolver.
Helena apenas assentiu.
— Entendo.
Quis perguntar para onde ele iria, quanto tempo ficaria fora. Mas nenhuma dessas perguntas ultrapassou seus lábios. Afinal, durante dois anos, nunca fizera esse tipo de pergunta. Não seria agora que começaria.
Os dois voltaram ao silêncio.
Poucos minutos depois, Eduardo pousou a xícara sobre o pires, levantou-se e olhou para Helena.
Por um instante, pareceu querer dizer alguma coisa, mas desistiu.
— Tenha um bom dia.
— Você também... e boa viagem.
Eduardo fez um discreto gesto com a cabeça.
— Obrigado.
Virou-se e deixou a sala.
Helena permaneceu sentada, acompanhando-o com o olhar até que ele desaparecesse. Só então baixou os olhos para a xícara de café.

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