Helena pegou as chaves dentro da bolsa e já ia se virar para abrir o carro. Nesse instante, Danilo acelerou discretamente o passo, como se fosse abrir a porta para ela ao passar ao lado dela, seu pé tocou de leve a ponta do salto de Helena, no exato momento que ela deu um passo.
Helena perdeu completamente o equilíbrio e seu corpo inclinou-se para frente. Instintivamente, segurou-se em Danilo para não cair. Ele a envolveu pela cintura e seus rostos ficaram separados por poucos centímetros. Pareciam um casal prestes a se beijar.
Helena recuperou o equilíbrio e tentou se afastar, mas Danilo a segurou mais firmemente. Ela levou a mão ao peito dele tentando empurrá-lo, mas o gesto o fez apenas se aproximar mais.
— Desculpe.
Danilo sorriu com gentileza.
— Você se machucou?
— Não, obrigada. — Disse ela firme. — Pode me soltar por favor, preciso ir.
Sem que Helena percebesse, o carro de Eduardo arrancou a poucos metros dali e passou por eles. Danilo sorriu satisfeito por dentro e fez um gesto afirmativo.
— Tudo bem. Dirija com cuidado.
Finalmente Danilo soltou Helena, ela entrou no carro, ligou o motor e saiu sem olhar novamente para ele
Somente quando as lanternas traseiras desapareceram é que Danilo entrou no carro e pegou o celular e ligou para Viviane.
O sorriso foi desaparecendo enquanto a chamada não era atendida, ele estava ansioso para contar que o encontro havia sido melhor do que ele esperava.
O telefone continuou chamando até cair, ele tentou novamente e nada. Depois da quarta tentativa, ligou o carro e partiu sem saber que Viviane não atenderia suas ligações.
*****
Eduardo dirigia sem rumo pelas ruas da cidade, sua mente era um turbilhão.
A prisão de Angelina, a mulher que durante anos conhecera como Viviane, a mulher por quem ele um dia acreditou que amou um dia, agora tudo era mentira.
A delegacia, a confissão, os depoimentos, o reencontro com Leonardo... Cada acontecimento daquele dia parecia pesar sobre seus ombros.
Mas, acima de tudo, havia a imagem que insistia em voltar à sua mente. Helena nos braços de Danilo se repetiam em sua mente como um filme impossível de interromper. Tudo parecia desafiá-lo, alimentando uma inquietação que ele não conseguia controlar.
Ele não sabia o que havia entre os dois. Talvez não fosse absolutamente nada. Ainda assim, depois de tudo, aquela cena encontrou um homem emocionalmente esgotado e rompeu o último fio de equilíbrio que lhe restava.
Sem perceber para onde estava indo, acabou parando em um restaurante sofisticado. Desceu do carro, atravessou o salão quase sem notar o movimento ao redor e seguiu diretamente para o bar.
Sentou-se em um dos bancos e pediu um uísque.
Assim que o copo foi colocado à sua frente, virou metade da bebida de uma só vez. O líquido queimou a garganta, mas não foi suficiente para aliviar o aperto que carregava no peito.
Naquele momento, Bruno chegava ao restaurante acompanhado de um grupo de executivos. A reunião de negócios já estava marcada havia semanas e todos conversavam descontraidamente enquanto aguardavam o maître.
Foi então que Bruno avistou Eduardo sozinho no balcão do bar.
Franziu a testa.
Conhecia o amigo há muitos anos e jamais o vira daquela forma. Eduardo sempre fora um homem disciplinado, reservado e dono de um autocontrole quase inabalável. Vê-lo sozinho, bebendo antes mesmo do jantar, era algo completamente fora do comum.
— Senhor Lima, por aqui, por favor. — chamou um dos executivos.
Bruno desviou o olhar de Eduardo por um instante e acompanhou o maître até a mesa reservada.
A conversa de negócios começou normalmente, contratos, investimentos e projeções ocuparam o centro das atenções. Ainda assim, por diversas vezes, Bruno voltou os olhos discretamente para o bar.
Eduardo continuava ali.
Sozinho.
Com um copo de uísque à frente e um olhar perdido que Bruno jamais imaginou ver no homem que sempre parecera inabalável. O empresário tentou se concentrar na reunião, mas uma incômoda sensação de que algo muito sério havia acontecido não saía de sua cabeça.
*****
Bianca acabava de chegar em casa. Poucos minutos depois, Bernardo também entrou, algo raro para aquele horário.
Os dois cumprimentaram Glória com um abraço e um beijo carinhoso no rosto. Então, Glória comentou:
— Vocês nem imaginam o movimento que teve aqui hoje. A tranquilidade do bairro acabou logo cedo. Várias viaturas da polícia pararam em frente à casa da esquina e prenderam o casal que morava lá.
Bianca arregalou os olhos.
— Tem certeza, mãe?
Glória estranhou a reação da filha.
— Claro que tenho. Eu vi tudo da janela. A rua ficou cheia de curiosos.
Bianca permaneceu em silêncio por alguns segundos, assimilando a notícia.

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