Helena
Em casa, Helena acabara de percorrer parte da enorme mansão. Além do andar superior, onde ficavam os quartos, havia níveis que ela ainda não conhecia. Aproveitando o relevo do terreno, a casa se erguia sobre uma encosta, revelando dois andares abaixo da entrada principal.
O térreo concentrava os espaços do dia a dia: a cozinha ampla, moderna, integrada à sala de jantar, além das salas íntimas e de visita. Havia também um escritório, sempre fechado, e varandas generosas que traziam luz e ventilação para todos os ambientes.
Mas foi ao descer que Helena realmente se surpreendeu.
No primeiro nível inferior, encontrou uma grande sala de estar, quase inteiramente cercada por vidro. A vista se abria para um vale verdejante, onde o jardim cuidadosamente desenhado se estendia até uma piscina que mais parecia cenário de revista.
E, no centro daquele ambiente, estava um piano de cauda branco.
Helena se aproximou devagar, o espaço era quase minimalista. Algumas poltronas, cadeiras leves, poucos objetos. Tudo simples, mas com uma elegância que ela nunca havia visto de perto.
— O senhor Eduardo mandou comprar este piano para a senhora.
A voz de Olga surgiu atrás dela. Helena se virou, surpresa.
— Ele… comprou para mim?
Olga sorriu discretamente.
— Sim, senhora.
Por um instante, Helena ficou em silêncio, absorvendo o instrumento, sentindo algo aquecer suavemente dentro dela. Era algo inesperado e um ato de atenção e delicadeza. Completamente diferente da frieza de Eduardo
— Eu… vou agradecer a ele — disse, quase em um sussurro.
Sentou-se na banqueta, abriu a tampa com cuidado… mas não tocou.
Apenas deixou os dedos repousarem sobre as teclas, como se precisasse daquele contato antes de qualquer som.
Então sorriu para Olga.
— Poderia me mostrar o restante da casa?
— Claro, senhora.
Elas seguiram explorando o ambiente e, no nível abaixo, Helena encontrou a área de lazer completa: sala de jogos, churrasqueira, um bar e uma academia equipada com tudo o que se poderia imaginar.
Ela observava tudo com curiosidade, já se imaginando usando aquele espaço. Por fim, caminharam até a área da piscina.
A vista era deslumbrante. O horizonte parecia infinito, e a casa, vista dali, tinha um ar quase cinematográfico.
Helena apoiou as mãos na borda de um corrimão, deixando o olhar se perder ao longe. E, inevitavelmente, lembrou-se de sua antiga casa.
No bairro de classe média, mais simples, com apenas dois andares… que, comparada àquela mansão, parecia agora pequena demais.
Mas lá havia algo que ali ainda não existia: calor e aconchego. Ali, apesar de toda a beleza… tudo ainda parecia frio.
*****
Eduardo e Helena
Eduardo chegou tarde para o jantar. Ao entrar na casa, estranhou encontrar Helena à sua espera.
— Boa noite. — disse ela, oferecendo um sorriso suave.
— Boa noite. — respondeu ele, seco. — Estava me esperando?
— Sim. Vou pedir para servirem o jantar.
Sem aguardar resposta, Helena seguiu até a cozinha. Quando voltou, encontrou Eduardo já sem o paletó, afrouxando a gravata com movimentos cansados.
— Não precisava me esperar. — comentou ele.

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