Por um longo instante, nenhum dos dois disse absolutamente nada. Helena ficou surpresa, não sabia quanto tempo ele estava ali.
Eduardo também não sabia explicar por que não conseguia ir embora. Nenhum dos dois desejava fugir daquele silêncio.
Eduardo respirou fundo e seu corpo moveu-se quase involuntariamente, deu um passo em direção ao piano. Mas ao fazer isso, o celular vibrou no bolso do paletó.
Os dois estremeceram e o encanto foi quebrado. Eduardo fechou os olhos por um instante e olhou para o celular, na tela aparecia o nome de Murilo.
Atendeu imediatamente.
— Senhor. Desculpe incomodar tão tarde. — Disse Murilo, ela sabia que o chefe não se importaria, era algo importante. — Recebemos uma atualização da equipe do Grupo Walker. O voo da equipe técnica foi antecipado, precisaremos alterar toda a programação de amanhã.
Eduardo permaneceu alguns segundos em silêncio, ainda olhando para Helena.
— Entendido. — Eduardo falou com voz baixa e rouca, logo depois o tom neutro do empresário voltou. — Resolva como achar melhor, estarei na empresa mais cedo amanhã.
Encerrou a ligação e quando tornou a erguer os olhos, Helena ainda permanecia diante do piano.
Os dois voltaram a se olhar. Havia tantas perguntas naquele silêncio, mas nenhuma coragem para formulá-las.
Depois de alguns segundos, Eduardo falou pela primeira vez.
— Você continua tocando… — A voz saiu mais baixa do que imaginava.
Helena sorriu de maneira quase imperceptível.
— Fazia tempo que não tocava.
Novo silêncio. Eduardo pareceu querer dizer alguma coisa, mas as palavras morreram antes de chegar aos lábios, ele apenas assentiu.
— Você toca muito bem. Boa noite, Helena.
Ela respondeu com a mesma suavidade.
— Boa noite, Eduardo.
Ele virou-se lentamente e voltou para a escada.
Helena permaneceu sentada diante do piano e esperou até ouvir seus passos desaparecerem completamente.
Só então pousou delicadamente a mão sobre as teclas, sem tocar uma única nota. Apenas acariciando o piano como quem se despede de um momento que desejava guardar para sempre.
*****
Helena permaneceu alguns instantes sentada diante do piano. A música já havia terminado há algum tempo e agora restava apenas o silêncio… o silêncio a ausência de Eduardo.
Um silêncio tão profundo que parecia refletir sua própria vida.
Tinha o carinho dos tios, o amor dos primos, amigos sinceros e uma empresa sólida. Tudo o que muitas pessoas sonhavam possuir.
E, ainda assim, sentia-se incompleta, porque seu coração parecia existir apenas pela metade. A outra metade… Chamava-se Eduardo.
Fechou lentamente a tampa do piano. Dentro de alguns meses, o contrato chegaria ao fim.
E, a cada dia que passava, diminuía um pouco mais a esperança de que Eduardo algum dia olhasse para ela não como uma esposa contratual, mas como mulher.
Respirou fundo, lentamente deixou a sala de música e subiu as escadas, ao alcançar o andar superior, seus passos pararam abruptamente.

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