Eduardo
A porta se fechou atrás dele, e o silêncio da sala pareceu avivar ainda mais seus pensamentos.
Eduardo largou a pasta sobre a mesa, sem cuidado, e passou a mão pelo rosto, impaciente. Afrouxou a gravata, como se o ar ali dentro tivesse se tornado insuficiente.
Começou a andar de um lado para o outro com passos firmes e irritados.
— Não. — A imagem de Helena insistia em voltar persistente, incômoda e aquilo o incomodava muito mais do que deveria.
— Isso não faz sentido… — murmurou, baixo, irritado consigo mesmo.
Isso não fazia parte dos planos, não daquela forma. Era só um casamento conveniente, sem emoção ou envolvimento.
Então por que… Parou abruptamente e respirou fundo.
— Não. — Murmurou e passou a mão pelo maxilar, tenso.
Não podia permitir aquilo, precisava manter distância. Era o único jeito de não perder o controle. Mas, antes que conseguisse organizar os próprios pensamentos, a porta se abriu sem aviso.
Eduardo virou-se, já pronto para repreender quem ousou entrar sem ser anunciado e então travou.
Viviane.
Ela entrou elegante, segura… como se ainda tivesse o direito de estar ali.
— O que faz aqui? — disse ele, seco.
— Desculpe, senhor. — Márcia surgiu logo atrás, visivelmente nervosa. — Tentei avisar que o senhor estava ocupado.
— Tudo bem, Márcia. Eu resolvo. — A resposta veio entre dentes.
A presença de Viviane era o último tipo de problema que ele queria enfrentar. Não agora. Não quando seus pensamentos e sentimentos se misturavam de forma a deixar tudo em caos.
— Você precisa dizer a ela que não preciso ser anunciada. Sempre foi assim. — Viviane sorriu de leve, fechando a porta atrás de si.
Caminhou até ele sem pressa, os olhos atentos, analisando cada detalhe de sua expressão.
— Você sumiu… Nem atendeu minhas ligações.
Eduardo não respondeu. Nem desviou o olhar, mas estavam frios como lâminas de aço de uma guilhotina bem afiada. Realmente ela havia deixado vários recados com Márcia, mas ignorou todos.
Viviane parou diante dele, perto o suficiente para sentir a tensão que o dominava.
— O que foi? — inclinou levemente a cabeça. — Você parece… tenso
Ela o observou por alguns segundos e então sorriu de lado, como quem chega a uma conclusão.
— É ela, não é?
Eduardo franziu a testa.
— O que você veio fazer aqui, Viviane? Já disse que não há mais nada entre nós. Agora sou um homem casado.
— Está falando da sua esposa… Helena. — O nome veio carregado de desdém. — Aquela mulher não é para você.
A frase foi suave… mas afiada.
Eduardo não respondeu, apenas ficou olhando para Viviane tentando enquadrá-la na sua vida.
Mas para ela, o silêncio dele foi resposta suficiente. Incentivada, Viviane avançou mais um passo, diminuindo ainda mais a distância entre eles.
— Você nunca foi feito para alguém como ela — continuou, a voz baixa, envolvente. — Fria… apagada… sem vida, sem fogo.
Os olhos dela se prenderam aos dele.
— Você sempre foi intensidade pura, Eduardo.
Ela ergueu a mão e tocou de leve o peito dele, sentindo a respiração acelerada.
— Você sempre foi… meu.
O maxilar dele se contraiu.
— Isso acabou.
— Acabou? — Ela arqueou a sobrancelha, com um sorriso provocador. — Tem certeza?
Viviane se aproximou ainda mais. Agora, não havia espaço entre eles e ela ergueu o dedo, tocou o peito dele e deslizou lentamente desenhando o contorno bem definido.
— Porque eu me lembro muito bem de você dizendo que nunca amaria outra mulher como me amava.
As palavras foram ditas devagar, como quem sabe exatamente onde atingir.
Eduardo fechou os olhos por um instante.
As memórias vieram rápidas, intensas. Momentos que ele havia enterrado… ou acreditava ter enterrado. Quando abriu os olhos, havia algo diferente ali… menos controle.
Viviane percebeu e sorriu docemente e avançou mais.
— Nós éramos fogo — sussurrou, próxima ao rosto dele. — Ou você esqueceu?
O silêncio tornou-se denso e carregado e o conflito dentro de Eduardo intensificou ainda mais.
Helena e Viviane.
Passado e presente.
Razão… e impulso.

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