Eduardo
Eduardo permanecia imóvel no escritório, como se ainda estivesse preso ao momento anterior. O silêncio que ficou não era alívio. Pelo contrário era confusão e caos.
Ele soltou o ar devagar, passando a mão pelo rosto, tentando organizar os próprios pensamentos, mas eles vinham desordenados, insistentes.
O gosto do beijo ainda estava ali, mas não havia nada por trás dele, absolutamente nada.
Apenas o gosto amargo de sentir que não havia mais o fogo de antes, era como se tivesse beijado uma estranha.
Eduardo cerrou os olhos com força.
— Droga…
Virou-se bruscamente, apoiando as mãos na mesa, a respiração pesada. Ele sabia exatamente o que tinha acabado de acontecer.
Ou que não tinha acontecido. Não houve entrega ou qualquer sentimento. E isso o atingiu com uma clareza desconcertante.
Viviane não significava mais nada. O passado… tinha ficado exatamente onde deveria estar.
Então por que aquilo não trazia alívio?
Eduardo permaneceu em silêncio por alguns segundos, encarando o vazio à sua frente. E a resposta veio direta, inevitável.
Helena.
E aquilo o irritava, mais do que deveria. Ele se afastou da mesa, passando a mão pelos cabelos, inquieto.
— Isso não tem lógica…
Mas tinha, e ele sabia. Não era sobre Viviane, não mais.
Ela o tinha ferido profundamente. A dor do abandono, que por tanto tempo o consumiu, agora parecia distante… quase irrelevante. Algo que ele carregou por orgulho e ressentimento. Eduardo soltou uma breve risada, sem humor, balançando a cabeça.
— Um casamento por conveniência… — murmurou. — Era para ser simples.
Mas não era mais.
O que antes parecia uma decisão fria ao escolher Helena para cumprir o papel de esposa e afastar os fantasmas do passado, agora revelava uma fragilidade que ele não queria admitir.
— Não… — corrigiu a si mesmo, em voz baixa. — Foi uma escolha racional.
Mas, como se precisasse se convencer disso, algo surgiu em sua mente. Uma justificativa uma saída que isentava todo sentimento: Helena casou com ele por dinheiro.
O pensamento veio rápido… e encontrou espaço e algo terrível despertou nele.
— Claro… — murmurou, mais firme. — Dinheiro. Interesse.
E, por um instante, aquilo pareceu organizar o caos dentro dele.
— Ela aceitou por dinheiro… e eu por conveniência… — continuou, frio. — Então isso é apenas um negócio. Nada mais.
Mas então, a imagem dela surgiu novamente. O sorriso suave, os momentos na casa de praia. Helena na cozinha, preparando o café da manhã, as conversas, as tentativas de aproximação e a desculpa “para evitar comentários.”
Aquilo o atingiu como um raio. Eduardo ficou imóvel por um segundo e então sua expressão endureceu.
— Claro… — repetiu, agora com um tom diferente.
Na mente dele, as peças começaram a se reorganizar, mas não para a verdade. Para uma versão mais confortável para ele, como quem, mais uma vez, quer se blindar de sentir qualquer sentimento. De não voltar a sofrer.


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