A torre do Grupo Monteiro permanecia toda iluminada. Dentro do prédio, os funcionários trabalhavam sem parar. Para a maioria deles, aquela seria uma noite longa.
Pelos corredores, pessoas apressadas circulavam de um lado para o outro. Cafés eram preparados a todo instante, enquanto alguns funcionários faziam refeições rápidas diante dos próprios computadores.
O prazo precisava ser cumprido, e todos estavam dando o máximo.
Duas leves batidas na porta não fizeram Eduardo erguer os olhos dos documentos à sua frente.
— Entre.
Disse de forma seca, imaginando que fosse Murilo ou Márcia.
A porta se abriu devagar e Eduardo sentiu imediatamente que havia algo diferente. Ergueu os olhos e encontrou Helena parada diante dele, segurando uma bolsa grande.
— Helena? O que faz aqui?
Ela sorriu de leve.
— Você disse que talvez não conseguisse voltar para casa hoje. Vim trazer seu jantar.
A expressão de Eduardo suavizou. Ele estava sem o paletó e o nó da gravata um pouco solto e os cabelos em desalinhos enunciado que deveria ter passado as mãos por ele mais vezes que percebia.
Só então Helena percebeu o quanto ele estava cansado. As olheiras denunciavam a noite sem dormir, e havia uma tensão evidente em seu rosto depois de um dia inteiro mergulhado em problemas.
— Você parece exausto.
Helena se aproximou e colocou a bolsa sobre uma mesa. Depois, foi até a mesa de Eduardo, onde havia pilhas de documentos e o notebook aberto.
— Foi um dia difícil. Precisamos cumprir o cronograma. — Eduardo olhou para a bolsa. — Obrigado. Eu estava mesmo precisando de uma pausa.
— Então vamos aproveitar.
Helena sorriu e começou a preparar a mesa. Estendeu uma toalha, colocou os pratos e talheres e, em seguida, retirou os potes térmicos, organizando cada porção.
Eduardo permaneceu observando-a em silêncio. Havia algo estranhamente reconfortante naquela cena. Em meio àquela torre iluminada, cercado por números, relatórios e problemas, Helena havia simplesmente aparecido com comida feita por ela.
Quando terminou, voltou-se para ele.
— Vamos comer enquanto ainda está quente.
Eduardo se aproximou.
O vapor que saía dos recipientes trouxe consigo o aroma familiar da comida, fazendo-o perceber o quanto estava faminto. Havia alguns dias que não comia algo preparado por Helena, e aquele primeiro cheiro despertou uma sensação que não tinha relação apenas com a fome.
Era saudade.
— Você fez tudo isso?
— Sim. Achei que seria melhor do que um lanche em cima da mesa de trabalho.
— Com certeza.
Os dois se sentaram. Eduardo começou a comer e, logo na primeira garfada, reconheceu o sabor.
— Está delicioso.
Helena apenas sorriu.
Enquanto comiam, conversaram sobre o ataque, os sistemas que ainda precisavam ser revisados e as negociações com John Walker. Apesar de toda a turbulência, a integridade da parceria permanecia preservada.
Depois, Eduardo ergueu os olhos para ela.
— E você? Como foi seu dia?
Helena estava levando o garfo à boca e parou no meio do caminho, mas logo se recuperou. Ao colocar o alimento na boca demorou a mastigar e pegou uma taça de água.
— Normal. Muito trabalho. Felizmente, a empresa está indo bem. — Tentou manter a naturalidade, mas sua voz saiu um pouco insegura.
Eduardo percebeu a tensão. Por um instante, ficou observando-a, mas estava com tantos problemas na cabeça que acabou atribuindo aquilo ao cansaço.
— Sei que a empresa é da sua família, mas, se quiser, podemos contratar um bom administrador para cuidar da gestão. Assim, você teria mais tempo livre.
Helena franziu levemente a testa.
— E para que eu precisaria de mais tempo livre?
Eduardo sustentou o olhar dela. Havia várias respostas que poderia dar, uma delas era simples demais para ser dita.
Para ter mais tempo comigo.
Mas ele não disse.
— Só não quero que você se canse demais. — Disse por fim.
Helena ficou decepcionada, esperava outra resposta.
— No momento não preciso de tempo livre.
Havia certa amargura na sua voz e Eduardo percebeu, mas não disse mais nada. Os dois terminaram de comer em silêncio. Helena começou a recolher a mesa.
Eduardo se levantou e quando ela ia pegar um dos recipientes, Eduardo segurou sua mão fazendo Helena erguer os olhos.
— O que foi?
— Obrigado.
Ela sorriu.
— Você já disse isso.
— Eu sei.
Eduardo não soltou sua mão e continuaram trocando olhares. A tensão que existia entre eles aumentava a cada dia.

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