Os dias que se seguiram começaram a desenhar, pouco a pouco, para Helena como seria a rotina de casada.
Eduardo saía cedo, cedo demais, antes mesmo de Helena descer para o café. E quando voltava, já era tarde da noite e, às vezes, era só nessas horas que eles se encontravam.
Na casa, os olhares também diziam muito.
Maria e Neusa não escondiam os olhares curiosos e os cochichos pelos cantos. Mas encontrava em Olga um olhar silencioso de compreensão e apoio mudo, um olhar gentil que, sem palavras, parecia dizer mais.
Helena também passou a ficar mais tempo fora daquela mansão luxuosa, impecável… e fria. Assumiu mais aulas no conservatório, mergulhando na música como um refúgio necessário. Nos dias livres, ajudava a mãe na empresa, que crescia cada vez mais com o aumento dos pedidos e até uma fila de espera que exigia dedicação redobrada.
O escritório funcionava como um verdadeiro showroom, onde os clientes podiam conhecer chapas selecionadas de mármore e granito em exposição, além de peças exclusivas já finalizadas. Com os investimentos do Grupo Monteiro, Clara e Helena passaram a trabalhar com pedras nobres de alto padrão, escolhidas pela raridade, resistência, acabamento refinado e alto valor de mercado.
O escritório ficava na cidade e a empresa mantinha um galpão de beneficiamento um pouco mais afastado da cidade onde funcionava a marmoraria, equipada para o beneficiamento das pedra, um processo minucioso que envolvia corte técnico, lapidação, acabamento, polimento e moldagem de cada peça.
Foi nesse ambiente que Helena voltou a dedicar atenção a um antigo hobby. Mais do que musicista, ela também possuía grande sensibilidade artística e talento para o design. Helena passou a criar móveis e peças decorativas em mármore e granito, combinando sofisticação, funcionalidade e formas contemporâneas. Suas criações rapidamente conquistaram boa aceitação do público, e nas noites silenciosas em que Eduardo ficava ausente, ela se entregava ao desenho e desenvolvimento dessas peças exclusivas.
Ela ainda tirava tempo para frequentava academia quando chegava em casa, antes ela mal conseguia conciliar a academia a rotina, agora além de manter a forma a ajudava a manter o equilíbrio da mente.
Em um dos raros finais de semana em que decidiu manter a rotina de exercícios pela manhã, Helena desceu até a academia da mansão buscando, mais uma vez, um pouco de alívio para a mente inquieta.
Mas, ao chegar à entrada, parou.
Eduardo já estava lá.
De costas para ela, ele se exercitava na barra fixa. O movimento era preciso, controlado, cada elevação revelava a força contida em seu corpo, os músculos tensionando e relaxando com naturalidade. Estava sem camisa, e a luz que entrava pelas janelas destacava ainda mais cada linha, cada detalhe.
Helena prendeu a respiração sem perceber.
Ficou imóvel na entrada, como se qualquer movimento pudesse denunciá-la. Não era apenas surpresa… era o efeito que ele ainda causava, mesmo contra sua vontade.
Uma onda de calor subiu por seu corpo, inesperada, desconcertante. Pensou em sair dali antes que ele a notasse.
Mas, antes que pudesse dar um passo, Eduardo soltou a barra e se virou.
Os olhos dele encontraram os dela imediatamente. Por um breve instante, o tempo pareceu suspenso. Eduardo deu um leve sorriso.
— Vai ficar aí parada? — perguntou, a voz baixa, levemente rouca.
Helena sentiu o rosto aquecer, mas se obrigou a reagir com naturalidade. Fugir agora seria admitir demais.
Helena sustentou o olhar por um segundo, depois ergueu o queixo e entrou.
— Bom dia — respondeu, tentando soar neutra.
Passou por ele, consciente demais da proximidade, do calor que ainda emanava de seu corpo, do cheiro sutil de esforço e sabonete.
Foi direto para um dos aparelhos. Precisava se concentrar, mas não era fácil.
Helena começou sua série, mas estava dispersa. Tentava ignorar a presença dele, ignorar o fato de que, mesmo sem olhar, sabia exatamente onde Eduardo estava.
Mas era impossível.
A presença de Eduardo preenchia o ambiente de forma quase física. Cada movimento dele, cada som, cada respiração parecia amplificado.
E o pior… era que ele também sentia.

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