Helena
Helena não soube dizer como conseguiu chegar até o quarto. Subiu as escadas praticamente às cegas, com as lágrimas turvando sua visão e a mão pressionada contra a boca, tentando conter os soluços que insistiam em escapar.
Ao entrar, fechou a porta e correu até a cama como se as próprias pernas não a sustentassem mais. Caiu sobre o colchão e enterrou o rosto no travesseiro, deixando que o choro viesse sem controle, enquanto as palavras de Eduardo ecoavam em sua mente duras, frias, cruéis que se repetiam como facadas em seu coração.
Por que doía tanto? Por que aquilo a atingia daquela forma? Por que a ausência dele pesava mais do que deveria? E, acima de tudo, por que ela o esperava todas as noites, mesmo sabendo que ele talvez nem chegasse?
Helena apertou o tecido do travesseiro com força e a resposta veio sem aviso, clara e implacável, sem qualquer tentativa de negação: ela o amava.
O ar pareceu lhe faltar por um instante. Virou-se lentamente, encarando o teto sem realmente enxergar, o peito subindo e descendo de forma irregular enquanto tentava rejeitar aquela verdade que já não podia mais ser ignorada.
Aquele turbilhão de emoções, o nervosismo quando ele se aproximava, o silêncio carregado entre eles, a expectativa involuntária, a dor das palavras dele, a esperança silenciosa por um gesto mínimo. Aquilo tinha um nome, era amor.
— Não… eu não posso amar um homem como ele… — sussurrou, mas a própria voz lhe soou fraca, tardia, incapaz de sustentar a negação.
As lembranças vieram então, uma após a outra, como peças que finalmente se encaixavam.
O primeiro encontro no escritório dele, o impacto do olhar sobre ela, a tensão que ela interpretou como rejeição.
E a pergunta surgiu inevitável: por que aceitou se casar tão facilmente? Por que não resistiu mais?
Helena fechou os olhos com força, sentindo o peso da resposta se formar dentro de si. Porque já sentia algo, mesmo sem compreender. O que ela acreditou ser resistência talvez nunca tenha sido recusa, talvez fosse medo de enfrentar aquela verdade.
Agora tudo fazia sentido, e isso tornava tudo ainda mais doloroso.
Era apenas um contrato de casamento, onde não havia espaço para sentimentos, onde amar era proibido, um sentimento que nunca deveria existir.
A ironia daquela verdade a atingiu com força. Não era apenas errado… era cruel. Amar Eduardo significava caminhar diretamente para o sofrimento, porque ele deixou claro, em cada palavra, em cada gesto, que não havia espaço para nenhum tipo de sentimento dentro dele.
Helena levou a mão ao peito, como se pudesse conter a dor que se espalhava ali, profunda e silenciosa.
— Meu Deusa, como eu deixei isso acontecer…? — murmurou, a voz quebrada.
Mas, no fundo, ela sabia. Não foi uma escolha. Foi inevitável. E talvez o mais doloroso de tudo não fosse apenas amar… mas amar alguém que amava outra.
*****
Eduardo
Pouco antes de Helena deixar a sala, Eduardo já havia subido e fechado a porta do quarto com mais força do que pretendia e, por um instante, permaneceu ali, imóvel, como se o ar lhe faltasse. Afrouxou a gravata de vez, puxando-a com impaciência, e a deixou cair sobre a poltrona junto com o paletó. Em seguida, passou as mãos pelos cabelos, num gesto já habitual, mas que agora carregava algo mais de tensão e irritação.
Caminhou até a janela, a noite estava silenciosa demais, em contraste com o turbilhão que se formava dentro dele. Tentou focar nas luzes tênues do jardim, em qualquer coisa que o afastasse do que acabara de acontecer, mas foi inútil.

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