Na manhã seguinte, Helena despertou com a cabeça latejando. Mal conseguira pregar os olhos durante a noite e, quando o cansaço finalmente a vencera, o sono fora inquieto, fragmentado das palavras de Eduardo ainda ecoavam, insistentes, em seu subconsciente.
Levantou-se devagar, sentindo o corpo pesado, dolorido, como se carregasse mais do que apenas o próprio peso. Levou a mão às têmporas, pressionando-as na tentativa inútil de aliviar a dor.
Caminhou até o banheiro e tomou um banho demorado. Deixou que a água morna escorresse sobre si, como se pudesse lavar não apenas o cansaço, mas também o aperto no peito. Não adiantou.
Depois de se vestir, desceu para o café. Ainda no alto da escada, avistou Maria e Neusa arrumando a sala. As duas ergueram o olhar quase ao mesmo tempo, observando a patroa descer com passos lentos, o semblante abatido.
— Bom dia, senhora — disseram em uníssono.
— Bom dia… — respondeu Helena, em um murmúrio quase inaudível.
Ela seguiu em direção à cozinha, enquanto, atrás dela, Maria e Neusa trocavam um olhar significativo. Não era preciso dizer em voz alta: aquele casamento não ia bem.
Ao entrar na cozinha, encontrou Olga.
— Senhora, está tudo bem? — perguntou, com genuína preocupação.
— Sim… só estou com dor de cabeça.
Sem insistir, Olga aproximou-se e lhe estendeu uma xícara de café ainda quente.
— Beba. Vai ajudar. Vou buscar um remédio.
— Obrigada… — respondeu Helena, sem erguer os olhos.
Antes de se virar, Olga lançou-lhe um olhar carregado de tristeza. Havia, dentro dela, um desejo sincero de fazer algo por aquele jovem casal, mas não sabia como.
Mais cedo, Eduardo já havia tomado o café e saído. Olga suspirou ao lembrar-se dele. Já não reconhecia no homem frio e distante o rapaz que conhecera ainda adolescente.
Enquanto pegava um comprimido, seus pensamentos se embaralhavam. Acreditara, de verdade, que ele finalmente encontrara uma boa esposa, e via isso claramente em Helena. Via mais do que isso: mesmo sem compreender os detalhes daquele casamento, percebia algo não dito, um sentimento escondido entre os dois. E era justamente isso que os fazia sofrer.
— Aqui, senhora — disse, entregando o remédio.
Helena agradeceu com um leve aceno, tomou o comprimido e bebeu um gole do café, mas não conseguiu ir além disso.
Quando Olga percebeu que ela já se preparava para sair, seu olhar recaiu sobre a xícara quase intocada.
— Eu preciso ir. Vou acompanhar minha mãe ao médico.
Disse isso com pressa, como quem quer evitar qualquer pergunta e saiu.
*****
Viviane não podia acreditar no que tinha nas mãos.
Quando o porteiro avisou sobre a chegada de um envelope, ela não deu muita importância. Mas, ao abri-lo e se deparar com o convite dourado, seus olhos se arregalaram, não só de surpresa, mas de satisfação.
— Funcionou… — murmurou, deixando escapar um pequeno riso, quase um suspiro de triunfo.
Levantou-se e começou a andar pelo apartamento, incapaz de desviar o olhar do convite. A excitação vibrava em seus gestos, contida apenas pela lucidez fria que logo tomou conta de sua expressão.
Ela sabia exatamente como jogar.
Afastar-se de Eduardo, deixá-lo sentir sua ausência… e então retornar como um furacão, bela, segura, irretocável, apagando a presença da esposa ao lado dele. Tudo fazia parte de um movimento cuidadosamente pensado.
E, ao que tudo indicava, havia funcionado.
Viviane pegou o telefone sem hesitar e discou um número que conhecia de cor.
— Alô… — disse, com a voz baixa, carregada de intenção. — Tenho boas notícias.
Do outro lado da linha, alguém ouviu em silêncio.
E Viviane sorriu ainda mais.
*****
O consultório estava silencioso demais.
Helena sentada ao lado da mãe, observava cada movimento do médico atrás da mesa. Clara, ao seu lado, mantinha a postura serena de sempre, mas havia um cansaço visível em seu rosto, algo que nem mesmo seu esforço em parecer bem conseguia esconder.
O médico folheava os exames com atenção incomum. Não era apenas análise, era cautela.

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