Eduardo lançou mais um olhar para o celular sobre a mesa.
Murilo, atento, percebeu imediatamente. Não era comum ver o chefe disperso. Muito menos com o aparelho tão próximo, como se aguardasse algo ou alguém.
— Mais alguma coisa, senhor? — perguntou, mantendo o tom profissional.
Eduardo não respondeu de imediato. O olhar ainda preso à tela, como se não tivesse sequer ouvido.
Murilo aguardou.
— Não. Pode ir. — A voz veio depois de alguns segundos, mais baixa que o habitual.
— Com licença, senhor.
Murilo saiu em silêncio, fechando a porta com a mesma discrição de sempre, mas uma inquietação o fez ficar intrigado. O chefe estava estranho.
Eduardo parecia mais tenso, mais rígido do que o normal… e isso inevitavelmente se refletia em toda a equipe.
Assim que deu alguns passos fora do escritório, Márcia ergueu os olhos de sua mesa.
— E então, como foi com o chefe?
Murilo ajeitou o punho da camisa antes de responder.
— Normal… — disse, em tom neutro. — Um pouco ansioso, talvez por causa da recepção de hoje à noite.
Márcia o olhou, insatisfeita com a resposta.
— Não é só isso, Murilo. Ele tem andado muito diferente.
Murilo arqueou levemente a sobrancelha. Ele sabia, mas ficou em silêncio.
— Mais exigente. — Ela suspirou. — Está pedindo várias coisas ao mesmo tempo, mudando decisões de última hora… o setor administrativo já está sentindo a pressão.
— Ele sempre foi exigente. — Murilo concordou.
Nos últimos dias ele e o chefe trabalharam até tarde, e no dia seguinte Eduardo chegava primeiro que ele. Estranho para um homem que havia se casado a pouco tempo.
— Sim, mas agora está… excessivo. — Márcia baixou um pouco a voz. — Ontem mesmo, mandou refazer um relatório inteiro por causa de detalhes mínimos. E não era assim.
Murilo desviou o olhar por um segundo, pensativo. A imagem de Eduardo, minutos antes, com os olhos fixos no celular, voltou à sua mente.
— Percebi isso também — admitiu, mais baixo.
— Você acha que tem a ver com a recepção? — Nem Márcia acreditava nisso. O Grupo Monteiro sempre fazia grandes eventos.
Murilo respirou fundo.
— Não sei. — respondeu com sinceridade incomum. — Mas não é só trabalho.
Os dois trocaram um olhar rápido, carregado de entendimento. Algo estava acontecendo. E, quando Eduardo Monteiro mudava… tudo ao redor mudava junto.
— Melhor fazer o nosso trabalho, não estamos aqui para especular sobre a vida do chefe — disse Murilo, retomando a postura firme.
Márcia assentiu, ainda inquieta.
— Você tem razão… — murmurou ela.
*****
No escritório, Eduardo permanecia imóvel, o olhar fixo na tela do celular. O cotovelo apoiado na mesa, a mão sustentando o queixo, enquanto a mente girava em círculos. Ele esperava alguma reação de Helena.
Desde a noite da discussão, não havia voltado para casa. Não sabia ao certo se queria evitá-la… ou puni-la. A resposta simplesmente ele não sabia.
Nesses dias ele ficou num apartamento que mantinha perto do escritório, era um refúgio quando queria ficar sozinho, ou para seus encontros com Viviane. Agora, ele considerou mais uma fulga.
Mas do que ele estava fugindo?

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