Naquele dia, Helena tinha um compromisso diferente: o chá com Olívia.
Chegou no horário combinado e foi recebida pelo mordomo da mansão Monteiro, que a conduziu até a sala íntima de Olívia. Assim que a viu entrar, Olívia se levantou e a acolheu com o carinho de sempre.
— Querida…
Ela a guiou até um sofá confortável e sentou-se à sua frente. O ambiente era elegante e discreto, perfeito para uma conversa reservada.
Começaram com trivialidades. Comentários leves, educados, quase automáticos, que serviam apenas para preencher o espaço antes do que realmente importava, Helena aguardava um momento favorável para abordar o assunto que a afligia a dias.
O chá foi servido por uma empregada uniformizada, que se retirou em silêncio logo depois.
Helena percebeu, com certo alívio, que Olívia não mencionava o casamento nem perguntava por Eduardo. Já fazia dois dias desde o encontro com Laura, e ela não o via desde então. Sabia apenas que ele voltava para casa à noite, pelo som do carro e saía cedo pela manhã, informação que Olga deixava escapar com discrição.
Houve um pequeno silêncio e Helena respirou fundo tentando encontrar as palavras, mas antes de dizer qualquer coisa, algo mudou. O olhar de Olívia se tornou mais sério e também mais triste.
— Querida… — começou, com suavidade — eu te chamei porque preciso te contar o que realmente aconteceu.
Fez uma breve pausa.
— O motivo pelo qual Viviane abandonou o Eduardo… e o que o transformou nesse homem que você vê hoje. Às vezes, eu mesma estranho no que meu filho se transformou.
A voz carregava um lamento profundo, e a tristeza em seus olhos denunciava uma dor que tentava esconder.
Helena se inclinou levemente para frente.
— Senhora Olívia… eu esperava por esse momento. Eu quero ajudar o Eduardo, mas preciso saber a verdade.
Olívia a observou com atenção.
— Você o ama.
Não era uma pergunta.
Helena ergueu os olhos, surpresa com aquela afirmação e, ao mesmo tempo, incapaz de negá-la. O silêncio que se seguiu foi resposta suficiente.
Olívia sorriu com ternura. Havia esperança naquele gesto, como se acreditasse que aquele sentimento pudesse, de alguma forma, alcançar o filho.
Respirando fundo, ela começou:
— Há cerca de dois anos, Eduardo sofreu um grave acidente. Ele quase morreu.
Helena sentiu o coração falhar por um instante.
— O carro em que ele estava ficou completamente destruído. Foi um milagre ele ter saído vivo dos destroços. — Olívia levou a mão ao rosto, enxugando discretamente uma lágrima. — Ele entrou em coma… ficou assim por quase um mês. Os médicos diziam que, se acordasse, talvez tivesse sequelas… que talvez nunca mais voltasse a andar.
Helena tentou absorver a imagem. Era difícil conciliar aquele homem forte, altivo e impenetrável com a fragilidade descrita.
— E foi então que ela foi embora… — continuou Olívia, agora com um tom que misturava dor e rancor. — Viviane.
O nome soou pesado no ar.
— Depois do acidente, ela ainda apareceu algumas vezes no hospital… mas muito raramente, para alguém que se dizia noiva apaixonada. — Um riso amargo escapou. — Enquanto meu filho lutava entre a vida e a morte, ela continuava frequentando festas.
Helena lembrou-se das palavras de Laura. O desaparecimento repentino. O silêncio. Tudo começava a fazer sentido. Provavelmente a família conseguiu manter o ocorrido em segredo
— Nós cobramos dela. — a voz de Olívia falhou por um instante — Dissemos que, como noiva, ela deveria estar ao lado dele…
As lágrimas vieram sem que ela tentasse contê-las.
— E sabe o que ela respondeu?
Helena prendeu a respiração.
— Que não cuidaria de um inválido.
O silêncio que se seguiu foi devastador. Helena não se moveu. Sentia a respiração irregular, o peito apertado.
— Então ela foi embora… — completou Olívia, em um sussurro.
— Ela o abandonou… — murmurou Helena, sentindo a dor tomar conta.

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