Se havia algo que Helena compreendia agora, era que Eduardo não era apenas um homem difícil. Ele era alguém que carregava cicatrizes profundas demais para serem ignoradas.
— Ele… — Helena começou, hesitante — ele nunca comentou nada disso comigo.
Olívia soltou um suspiro leve, quase conformado.
— Eduardo nunca fala sobre o que o feriu. Ele simplesmente… enterra.
Houve uma breve pausa. Então, algo no semblante de Olívia mudou, uma sombra de orgulho atravessou a tristeza.
— Mas há uma coisa que você precisa saber — acrescentou.
Helena ergueu o olhar.
— Meu filho sempre foi determinado. Desde pequeno. — disse, com firmeza — E ele não aceitou, em nenhum momento, a ideia de ficar preso a uma cama ou a uma cadeira de rodas.
Helena sentiu a atenção se intensificar.
— Os médicos foram cautelosos, quase pessimistas… mas Eduardo não. — continuou Olívia — Ele enfrentou tudo. Cirurgias, tratamentos longos, dolorosos… fisioterapia exaustiva.
Um leve sorriso surgiu, carregado de orgulho.
— Ele lutou como nunca.
Helena imaginou aquela força, aquela obstinação… e, de repente, tudo fazia sentido. A rigidez, o controle, a frieza não eram apenas traços de personalidade, mas defesas construídas após uma batalha silenciosa.
— E ele conseguiu… — disse Helena, quase em um sussurro.
— Sim. — confirmou Olívia. — Contra todas as expectativas.
O orgulho na voz dela era inegável.
— Eduardo voltou a andar, voltou a trabalhar. — fez uma pausa leve — Mas nunca voltou a ser o mesmo.
Helena respirou fundo, agora ela entendia. Entendia a dor e a resistência de se abrir a qualquer sentimento. Mas ainda havia algo que não se encaixava.
Como uma mulher como Viviane havia conseguido se tornar noiva de um homem pertencente a uma família tão rica e influente… se ela fosse, de fato, tudo aquilo que Laura havia descrito?
Helena ergueu o olhar, cautelosa.
— Senhora Olívia… vocês chegaram a conhecer a família de Viviane?
Olívia assentiu, sem hesitar.
— Sim. Pessoas muito distintas, extremamente educadas. Vieram ao Brasil especialmente para nos conhecer. — fez uma breve pausa — Disseram que tinham diversos empreendimentos pelo mundo. Vivem viajando, não têm uma residência fixa… passam temporadas em diferentes propriedades.
— Entendo… — respondeu Helena, em tom neutro.
Mas, por dentro, algo não fechava.
Se Viviane realmente viesse de uma família tão rica, por que depender de homens? Por que viver à sombra deles?
A contradição era evidente demais para ser ignorada.
Depois que Olívia finalmente se acalmou, Helena levantou-se para se despedir.
— Obrigada por me contar tudo isso.
Olívia segurou a mão dela por um instante, com um olhar carregado de expectativa.
— Você precisava saber… — disse, com suavidade — e espero que tenha paciência. Que consiga entender certas atitudes de Eduardo.
Helena assentiu. O coração ainda estava apertado, mas, agora, havia compreensão onde antes só existia confusão.
Ao deixar a mansão e entrar no carro, o telefone tocou. O nome de Laura apareceu na tela.
— Laura, tudo bem?
— Tudo bem nada. — a resposta veio imediata, carregada de irritação — Aquele cafajeste do meu ex-noivo voltou ao Brasil. E, pelo que ouvi, está louco me procurando.
Helena se ajeitou no banco, atenta.
— Você pretende encontrá-lo?
— Nem que ele estivesse coberto de ouro. Não quero vê-lo nem pintado.
Helena respirou fundo por um instante antes de falar.

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