Viviane permanecia acordada enquanto o homem ao seu lado roncava, mergulhado em um sono pesado. Com cuidado, afastou o braço grande que repousava sobre seu corpo, levantou-se e seguiu até o banheiro.
Deixou a água morna escorrer lentamente pela pele. Seus olhos percorreram o próprio corpo, detendo-se em algumas marcas. Ele não foi violento, mas o ímpeto deixou sinais roxos. Fechou os olhos. Não queria mais aquela vida. Pegou a esponja e começou a esfregar a pele com mais força do que o necessário, como se pudesse apagar não só as manchas, mas tudo o que elas representavam.
Ao sair do box, enrolada na toalha, encarou o espelho. Estava envelhecendo. Micro rugas já se insinuavam em seu rosto. Não demoraria para ser substituída por mulheres mais jovens.
Ela precisava se casar e garantir seu futuro.
Nenhum dos homens com quem se envolvia deixaria uma família estável por ela. Mesmo sendo discreta, o meio em que vivia era pequeno demais para esconder completamente o passado. Alguns daqueles homens, quando a encontravam, fingiam não conhecê-la. Expor Viviane significava expor a si mesmos e os empresários prezavam pela imagem de homens íntegros e maridos exemplares.
Foi então que conheceu Eduardo Monteiro.
Herdeiro de uma das famílias mais poderosas do país, ainda solteiro. Viviane se encantou por sua beleza, seu charme e, principalmente, pelo nome que carregava. Para ele, construiu uma nova versão de si mesma: a moça rica, bem-educada e irrepreensível.
Eduardo se apaixonou quase de imediato. Desde o primeiro encontro, a intensidade entre eles foi avassaladora. Mas sustentar aquele papel exigia mais, exigia uma família.
Viviane havia saído de casa muito cedo. Aos dezoito anos, conseguiu ingressar na universidade, mas nunca foi aceita pelas colegas de famílias abastadas. A rejeição alimentou sua revolta contra a própria origem humilde. Foi então que conheceu um homem rico que se encantou por ela e lhe ofereceu a vida que sempre desejara.
Ela saiu de casa sem olhar para trás. Nunca mais teve notícias da família, nem os procurou.
Para impressionar os Monteiro, contratou um casal de atores para interpretar seus pais, supostos empresários que viviam viajando pelo mundo por causa de negócios. A encenação foi impecável. Ninguém desconfiou. Em menos de seis meses de namoro, ela e Eduardo estavam noivos.
A família a acolheu sem reservas. Viviane era a noiva perfeita: linda, elegante, gentil.
Mas havia uma exceção. Leonardo, o irmão mais novo de Eduardo.
Ela não sabia como, mas ele descobriu seu passado. Determinado a desmascará-la, armou um plano para expô-la diante do irmão. No entanto, Viviane era mais astuta. Descobriu tudo a tempo e virou o jogo: acusou Leonardo de estar apaixonado por ela e de tentar destruir seu relacionamento com Eduardo.
O plano dele fracassou. O dela, não.
O que Viviane não previu foi a intensidade do ciúme de Eduardo. Nem as consequências.
O acidente veio como uma ruptura brutal e, com ele, desmoronaram seus sonhos de se tornar uma Monteiro.
Ela lembrou do dia que o viu no hospital logo após o acidente. Ela observava Eduardo através do vidro, imóvel, ligado a aparelhos que sustentavam sua vida. O corpo que antes exalava vigor, altivez, agora parecia quase irreconhecível.
Os médicos haviam sido claros ao dizer que o coma não tinha previsão de despertar. E, se despertasse… a possibilidade de paralisia era alta.
Viviane não chorou.
Ficou ali por alguns minutos, em silêncio, absorvendo cada palavra, cada implicação. Não era apenas Eduardo que estava em coma, eram seus planos, seu futuro cuidadosamente construído, sua entrada definitiva na família Monteiro.
Tudo paralisado ou perdido.
Nos dias seguintes, ainda tentou sustentar o papel. Visitava o hospital, mantinha a postura de noiva dedicada, recebia olhares de aprovação da família. Mas, aos poucos, a realidade foi se impondo.
Meses e anos poderiam passar e mesmo que ele acordasse… nada garantiria que ele ainda seria o mesmo homem.
Ela não se imaginava presa a um homem em cima de uma cama e Viviane sabia sobreviver.
Os velhos contatos ainda estavam lá, à espera. O luxo fácil, os encontros discretos, os homens influentes, nada realmente havia mudado. Voltou às festas e clubes da elite.
Foi em uma dessas noites que conheceu Henrique e numa manhã, simplesmente deixou de ir ao hospital. Sem despedidas, sem olhar para trás. Não anunciou nada. Não explicou, apenas desapareceu.
Ela abriu os olhos devagar, encarando o espelho à sua frente. Um leve sorriso surgiu, mas não de alegria.
Henrique não fazia parte do plano, ele simplesmente aconteceu.
No início, foi só mais um encontro. Um homem diferente, sim, mas ainda assim alguém passageiro. Só que Henrique não se encaixava no padrão. Quando perceberam, já estavam do mesmo lado.

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