— Você está bem? — ele perguntou, em tom neutro.
— Estou… — respondeu, assentindo rápido demais.
Helena puxou a cadeira ao lado da cabeceira, onde ele estava, e se sentou com certa rigidez.
Nesse momento, Olga entrou, trazendo uma xícara de café fumegante. Só pelo aroma, Helena percebeu: forte, sem açúcar.
Assim que Olga saiu, Eduardo falou, sem desviar o olhar:
— Beba. Vai te fazer bem.
O tom era autoritário, sem espaço para discussão.
Eduardo parecia calmo demais para aquela manhã o que, para Helena, era ainda pior. A camisa branca impecável, a gravata azul-marinho perfeitamente ajustada, o café tomado sem pressa… tudo nele transmitia um controle frio e distante.
Helena mal conseguiu encará-lo. Bebeu o café em silêncio, buscando algum alívio para a dor de cabeça, mas a tensão só aumentava. Pegou uma torrada, mas antes mesmo de dar a primeira mordida, a voz dele veio, baixa e perigosa:
— Sobre ontem à noite… não tem nada para dizer?
Ela congelou por um segundo, então respirou fundo.
— Era o aniversário da Cláudia. Eu não estou acostumada a beber… acho que exagerei.
Eduardo soltou um riso curto, sem humor.
— “Acha”?
Ele pegou o celular com calma, calma demais, e deslizou a tela até parar em algo. Então virou o aparelho na direção dela.
— Acho melhor você ver isso.
Helena hesitou, mas pegou o celular. Bastou um segundo.
Seu estômago despencou, várias fotos surgiram diante dos olhos dela.
Ela dançando, rindo, visivelmente alterada, mas o pior não eram as imagens, eram as legendas.
“Senhora Monteiro é vista em boate sem o marido.”
“Esposa do empresário Eduardo Monteiro aproveita a noite sozinha.”
“Crise no casamento? Helena Monteiro surge em festa em uma boate desacompanhada.”
Helena sentiu o rosto perder a cor.
— Isso… — sua voz falhou — isso não pode…
— Já é o assunto do momento — cortou Eduardo, agora sem disfarçar a fúria contida. — E você facilitou cada uma dessas imagens.
Ela pousou o celular lentamente sobre a mesa, as mãos levemente trêmulas.
— Eu não fazia ideia de que alguém estava fotografando…
— Claro que não fazia — retrucou ele, seco. — Estava ocupada demais se exibindo.
Helena ergueu o olhar, ferida.
— Eu não estava me exibindo!
— Não? — ele se inclinou levemente para frente, o olhar duro — Porque é exatamente isso que parece.
Ela respirou fundo, tentando manter o controle.
— Eu só… saí com minhas amigas. Eu fico sozinha em casa, Eduardo. Dias inteiros. Sem saber quando você volta, onde está… ou com quem.
O maxilar dele travou.
— Você não sabe do que está falando.
— Não sei? — rebateu ela, agora mais firme, apesar do nervosismo. — Foi você quem disse que nenhum dos dois devia satisfação ao outro.
O silêncio que caiu entre eles foi pesado.
— Uma coisa é discrição — disse, controlando cada palavra. — Outra é virar manchete.
— Me desculpa, eu… não sabia que isso poderia acontecer.
— Eu já mandei derrubar tudo. — Disse ele sem amenizar o tom gélido.
Helena piscou, confusa.
— O quê?
— As postagens. — Ele passou a mão pelo celular sobre a mesa. — Minha equipe agiu rápido. Monitoramento, denúncias, contatos diretos… em poucas horas, quase tudo saiu do ar.
Ele fez uma breve pausa, o olhar fixo nela.
— O estrago não foi maior porque eu tenho gente preparada para esse tipo de situação.
Helena sentiu um misto de alívio e vergonha.

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