Lorenzo Bianchi
Entrar naquela casa, depois de tudo, era como atravessar uma fronteira invisível.
Não era só o lar do meu padrinho, nem só o lugar onde cresci correndo entre os corredores e vinhedos. Era o mundo dela. Era o chão onde Aurora foi criada, onde cada parede conhecia os passos dela — os de alegria, os de dor. E agora, depois de tudo, eu voltava ali com a mão dela na minha. Não como amigo, nem como o afilhado que todos um dia viram como um filho extra. Eu voltava… como escolha. Como recomeço.
O ar dentro da casa parecia diferente. Mais denso, talvez. Ou era só o peso do que eu carregava no peito.
Aurora soltou minha mão ao atravessarmos a porta e correu até a cozinha com tia Isabella, deixando-me com tio Matheu. Ele ainda estava parado, perto da porta, como se observar fosse sua forma de proteger. Me senti mais exposto do que em qualquer outro momento da minha vida.
Ficamos em silêncio por longos segundos.
Ele não precisava dizer nada — o olhar já dizia tudo.
"Ela é minha filha. E você já feriu o suficiente."
Assenti levemente. Não precisava defender o indefensável. O que houve entre nós no passado deixou cicatrizes em todos. Só que dessa vez… era diferente. Dessa vez, eu não tinha vindo em busca de um momento. Eu estava aqui por um caminho inteiro.
— Obrigado — murmurei, baixo. — Por não fechar a porta.
Tio Matheu não sorriu, mas também não virou o rosto.
— Por ela, Lorenzo… — ele disse, com aquela voz grave que sempre pareceu conter o mundo — eu faço qualquer esforço. Só espero que você faça também. Agora não tem mais volta, sei que ontem a noite minha menina tornou-se mulher, sua mulher. Em suas mãos está meu bem mais precioso.
Fiz que sim com a cabeça. Prometer em voz alta não parecia suficiente.
O cheiro de café recém-passado preencheu o ar. Aurora voltou, me puxando pela mão. Aquele toque simples… me salvava. Toda vez.
Sentamos à mesa. Tia Isabella servia as xícaras com mãos ainda trêmulas, mas o olhar era mais leve. Observava Aurora como quem ainda duvidava que ela estava ali de verdade, como quem tem medo de fechar os olhos e tudo sumir.
O café da manhã foi silencioso, mas não desconfortável. Era o silêncio de quem está digerindo muito mais do que comida.
Depois de algum tempo, Aurora pousou a mão sobre a minha perna, um toque leve, firme.
— Vamos? — perguntou.
Assenti, entendendo o que ela queria. Hora de contar aos meus pais.
O caminho até a casa dos meus pais foi feito em silêncio, mãos dadas entre o câmbio e o freio de mão. O céu estava límpido, mas o nervosismo crescia como nuvens escuras na minha mente.
Eles não sabiam. Nada. Sobre a noite em que Aurora apareceu na adega, com os olhos cheios de passado e coragem. Nem sobre a decisão de ir embora juntos e só voltar quando tudo fizesse sentido pra nós dois.
Meu pai, um homem serio, mas sempre torceu para que eu e a Aurora ficássemos juntos. Porem tenho certeza que não da forma como fizemos.
Estacionei o carro e respirei fundo.
— Pronta? — perguntei, mesmo sabendo que ela estava mais pronta que eu.
Aurora apenas apertou minha mão. E desceu.
Atravessamos o jardim da frente, onde os jasmins floresciam com o exagero típico do início de verão. Cada passo soava mais alto na minha cabeça do que sob o cascalho.
Minha mãe atendeu a porta. Ficou em silêncio por um segundo longo demais.
E então, seus olhos marejaram.

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