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Quadros de um divórcio romance Capítulo 237

“Quem deseja demais acaba perdendo a si mesmo.” Nietzsche

Um gemido doloroso escapou de Cássio antes mesmo de abrir os olhos. As têmporas latejavam com insistência, e o gosto amargo na boca parecia impossível de ignorar. Permaneceu alguns segundos imóvel, tentando reunir forças suficientes apenas para respirar sem que a cabeça parecesse prestes a se partir.

Por fim, ergueu o corpo apoiando-se nos cotovelos e forçou as pálpebras a se abrirem. A visão ainda estava turva, as formas do cômodo surgindo aos poucos, como se o mundo demorasse a voltar ao lugar.

Ele reconheceu o ambiente. Estava em seu próprio quarto, mas não fazia a menor ideia de como havia chegado ali.

Ainda estava com as mesmas roupas, a calça social e a camisa. Apenas os sapatos e a gravata haviam sido retirados.

Passou as pernas para fora da cama com dificuldade e esfregou o rosto com as duas mãos, tentando dissipar a névoa que envolvia seus pensamentos.

Foi então que notou o celular sobre o criado-mudo. Estendeu o braço e pegou o aparelho, semicerrando os olhos para enxergar a tela iluminada.

Já passava das dez.

Levantou-se cambaleante e deu alguns passos em direção ao banheiro, quando algo à sua direita o fez parar abruptamente.

O vestido de noiva pendurado ao lado de um smoking impecavelmente preparado.

A memória o atingiu com atraso. Aquele era o dia de seu casamento.

Cássio franziu a testa, a confusão misturando-se a um desconforto crescente. Afinal, onde estava Silvia?

Tomou um banho longo, deixando a água morna escorrer pelos músculos tensos, tentando aliviar o cansaço que parecia impregnado até nos ossos. Aproveitou o vapor para fazer a barba ali mesmo, os movimentos automáticos, a mente ainda lenta e confusa.

Quando finalmente fechou o chuveiro, o estômago revirou, ácido, fazendo a bile subir até a garganta. Ele se apoiou na parede por um instante, respirando fundo, esperando a náusea recuar.

Vestiu um roupão e desceu as escadas em direção à cozinha, decidido a encontrar qualquer coisa que pudesse amenizar a ressaca.

Parou no meio dos degraus. Silvia estava sentada no sofá da sala.

Não se mexia. Não parecia sequer notar a presença dele. Apenas girava o celular entre os dedos, o olhar distante e gelado fixo em algum ponto indefinido à frente.

A quietude ao redor dela era perturbadora — não a calma, mas aquela ausência de vida que precede uma tempestade.

Cássio permaneceu imóvel nos degraus, sentindo um pressentimento incômodo apertar o peito.

...

Após retornar do Scarlet Bar na noite anterior, Silvia precisou reunir o que restava de suas forças para arrastar Cássio até o quarto. Cada passo foi uma luta contra o peso morto do corpo dele e contra a própria impaciência crescente. Quando finalmente alcançou a cama, simplesmente o soltou, deixando-o cair sobre o colchão sem qualquer delicadeza.

Aquilo já exigira dela mais do que gostaria de admitir.

Permaneceu ali por um instante, observando o homem desacordado, o peito subindo e descendo de forma irregular, a camisa amarrotada, o cheiro forte de álcool impregnando o ar. A irritação que vinha acumulando havia ultrapassado qualquer limite suportável.

Não conseguia mais olhar para ele naquele estado.

A imagem trazia de volta lembranças que preferia manter enterradas e sentimentos que ela se proibira de revisitar.

Virou-se abruptamente e deixou o quarto. Desceu até a sala e deixou-se cair no sofá, o corpo pesado demais para sustentar qualquer postura digna. O silêncio da casa envolveu-a como um manto opressivo.

Estava cansada.

Cansada de fingir ser alguém que não era.

Cansada de calcular cada gesto, cada palavra, cada movimento.

Cansada de viver em alerta constante, tentando impedir que seus planos ruíssem.

Cansada de carregar sozinha o peso do que havia feito com Márcio.

Mas, acima de tudo, estava cansada de ter que ser forte o tempo todo.

A exaustão emocional era tão forte que a afetava até fisicamente.

Por um momento, permitiu-se um pensamento proibido.

E se tivesse aceitado o pedido dele? E se tivesse fugido com Márcio quando tudo começou a desmoronar?

A imaginação construiu rapidamente um cenário alternativo — uma casa simples, em um lugar distante, longe dos olhares e dos escândalos. Um quintal pequeno, uma cerca branca, uma rotina comum. Talvez filhos correndo pelo jardim. Talvez paz.

Mas a pergunta que veio logo em seguida foi ainda mais incômoda.

Isso teria sido suficiente para ela?

Silvia fechou os olhos, o peito apertado por algo que não era exatamente arrependimento… nem exatamente saudade.

Era a consciência desconfortável de que, mesmo naquele cenário idealizado, algo dentro dela provavelmente continuaria insatisfeito. Sempre querendo mais.

Abriu os olhos novamente, encarando o teto vazio.

A fantasia desfez-se tão rápido quanto surgira.

O que restou foi apenas o presente — pesado e instável.

Em algum momento da madrugada, a exaustão finalmente a venceu, e Silvia adormeceu ali mesmo no sofá, envolta apenas por uma manta fina que pouco fazia para afastar o frio.

Quando o sol atravessou a grande vidraça da sala e atingiu seu rosto sem piedade, ela despertou com um leve sobressalto. A luz era dura demais, invasiva demais — como se a realidade estivesse sendo empurrada à força de volta para dentro dela.

O corpo parecia pesado, drenado, como se o descanso não tivesse restaurado absolutamente nada.

Ainda estava exausta. Mas havia algo mais forte do que o cansaço.

A determinação começou a se reacender lentamente, substituindo a fraqueza por uma rigidez quase dolorosa. Culpa, insegurança e medo eram luxos que ela não podia mais se permitir.

Sentou-se devagar e deixou o olhar percorrer a ampla sala de teto alto, cada detalhe refletindo riqueza e status — os móveis sofisticados, as obras de arte cuidadosamente posicionadas, o silêncio impecável de um espaço que parecia existir apenas para impressionar.

Tudo aquilo gritava poder e agora, era ela quem ocupava aquele lugar. Não Helena.

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