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Quadros de um divórcio romance Capítulo 236

“O pior cansaço não é do corpo, é da alma.”

O carpete do quarto já começava a apresentar marcas suaves do trajeto repetitivo de Silvia, que andava de um lado para o outro sem parar. A noite avançava implacável, esticando cada minuto até torná-lo insuportável — e Cássio ainda não havia chegado. Não atendia às ligações, não visualizava as mensagens.

Era como tentar segurar areia com as mãos abertas.

Tudo escapava de seu controle.

Mesmo sabendo que Esther estava do seu lado, a possibilidade de Cássio simplesmente cancelar o casamento na última hora crescia como uma sombra dentro dela. O pânico apertava seu peito a cada segundo, roubando-lhe o ar, até que o celular vibrou em sua mão.

Silvia parou abruptamente.

Desbloqueou a tela com urgência, o coração disparado na esperança de ver o nome dele.

Não era.

O nome que piscava era o de Renato.

Um frio percorreu sua espinha.

Teria acontecido alguma coisa?

Cássio teria desistido e enviado o amigo para avisá-la?

Atendeu com a respiração presa, já preparada para a pior notícia.

Mas o que ouviu foi diferente.

Cássio havia bebido demais. Renato também estava alterado e não tinha condições de dirigir. Então caberia a ela buscá-lo.

Por um instante, Silvia ficou em silêncio, assimilando a informação — alívio e irritação se misturando de forma quase dolorosa.

Ainda assim, quase riu da ironia amarga do destino de ser ela agora a ter de buscar aquele homem embriagado em um bar.

Trocou de roupa às pressas, escolhendo a primeira peça que encontrou no closet, sem sequer se preocupar em combinar cores ou tecidos. Pegou as chaves sobre o aparador e saiu apressada, os passos ecoando pela casa silenciosa enquanto seguia em direção ao Scarlet Bar.

O ar frio da noite a atingiu assim que deixou a residência, ajudando a clarear a mente apenas o suficiente para mantê-la funcional. Entrou no carro com movimentos bruscos e deu partida antes mesmo de fechar completamente a porta.

As ruas estavam mais vazias do que o normal para aquele horário, o que só aumentava a sensação de isolamento. Os faróis recortavam o asfalto escuro enquanto ela dirigia tensa, os dedos apertando o volante até os nós ficarem esbranquiçados.

A cada semáforo, a cada curva, a angustia insistente retornava.

“E se ele realmente estiver reconsiderando?”

Mas uma coisa era certa em sua mente, tudo aquilo era culpa de Helena.

Quando finalmente avistou a fachada iluminada do Scarlet Bar, um leve alívio percorreu seu corpo. Estacionou de qualquer maneira, desligou o motor e permaneceu imóvel por alguns segundos, tentando estabilizar a respiração.

Se o preço do desentendimento dos dois fosse apenas uma noite de bebedeira, ainda havia chances.

Ela empurrou a porta do carro e atravessou a calçada com passos rápidos. A música abafada escapava pelas portas do bar, junto com o cheiro de álcool e conversa alta.

Assim que entrou, os olhos de Silvia varreram o ambiente até encontrá-los.

Cássio estava inclinado sobre o balcão, aparentemente apagado, enquanto Renato permanecia ao seu lado.

Sem o paletó, com a gravata frouxa e a camisa levemente aberta no colarinho, havia algo profundamente desalinhado nele — não apenas na aparência, mas na própria postura, como se tivesse desmoronado por dentro.

Ela se aproximou com cautela.

— Por que ele bebeu tanto assim? — perguntou, esforçando-se para manter a voz calma.

O olhar de Renato estava sombrio, pesado o suficiente para despertar nela um impulso instintivo de recuar. Talvez fosse apenas o cansaço… ou a bebida. Talvez não.

— Não sei — respondeu ele, seco. — Acho que você deveria conhecer os motivos dele melhor do que eu.

As palavras atingiram como pequenas farpas. Antes, Renato fora um aliado; agora, parecia distante, quase hostil.

Silvia abriu a boca para responder, fechou, abriu novamente e, por fim, balançou a cabeça.

— Eu também não sei… — murmurou. — Geralmente homens se abrem mais com os amigos.

Renato soltou um breve suspiro.

— Às vezes. No meu caso, é minha esposa quem melhor me conhece.

O comentário pairou entre eles com um peso incômodo.

— Talvez ele esteja sobrecarregado com o trabalho — apressou-se Silvia, tentando justificar. — Afinal, nos casamos amanhã e ele passou o dia inteiro trabalhando.

Renato assentiu, mas sem convicção. Sabia que o tormento de Cássio ia muito além daquilo.

Desejando encerrar logo aquela conversa desconfortável, Silvia pousou a mão no ombro dele e o sacudiu levemente.

— Cássio… vamos para casa.

Ele demorou alguns segundos para reagir, como alguém emergindo de um sono profundo. Então ergueu a cabeça com esforço e forçou os olhos a se abrirem.

— Helena… você veio… — murmurou, a língua pesada.

Silvia congelou.

O calor subiu ao seu rosto num instante, o olhar se estreitando numa mistura de choque e fúria contida. Ao lado, Renato percebeu cada microexpressão — o endurecimento da mandíbula, o brilho perigoso nos olhos — antes que ela conseguisse recompor a máscara.

Silvia engoliu em seco e vestiu um sorriso tímido.

— Pode me ajudar a levá-lo até o carro? — pediu, tentando manter a voz neutra.

Renato havia bebido menos e, embora não estivesse em condições de dirigir, ainda tinha coordenação suficiente para sustentá-lo. Passou o braço por baixo dos ombros de Cássio, puxando-o para si.

Silvia posicionou-se do outro lado, evitando olhar diretamente para o rosto dele.

Em passos lentos e vacilantes, conduziram-no para fora do bar. O ar frio da noite bateu no rosto de Silvia como um choque, trazendo consigo o cheiro de asfalto e álcool evaporando.

Cada passo parecia mais pesado que o anterior.

Não apenas por causa do peso físico de Cássio. Mas pelo peso das palavras que ele acabara de dizer.

Com dificuldade, acomodaram Cássio no banco traseiro. Assim que o soltaram, o corpo dele despencou sobre o estofado, tombando de lado, completamente entregue ao torpor da bebida.

Silvia fechou a porta com um cuidado automático e voltou-se para Renato.

— Obrigada.

Ele apenas meneou a cabeça, sem esboçar um sorriso.

— Nos vemos amanhã no casamento — respondeu, antes de se virar e caminhar de volta para o bar sem olhar para trás.

Silvia o observou, incomodada, até que sua figura desapareceu porta adentro novamente. Só então voltou a atenção para o carro.

O vidro escurecido refletia apenas sua própria imagem.

Não conseguia ver Cássio lá dentro — apenas a si mesma.

O cabelo desalinhado, as roupas desconexas, o rosto cansado demais para alguém prestes a se casar.

“Se eu me casar com ele… será esse o meu futuro? Buscando-o embriagado em bares no meio da madrugada?”

A ideia lhe provocou um aperto desconfortável no estômago.

Deu a volta no veículo e assumiu o volante, fechando a porta com um baque seco. O interior do carro estava impregnado pelo cheiro de álcool, pesado e enjoativo.

Ligou o motor.

O caminho de volta começou em silêncio.

Casa.

A palavra soou estranha em sua mente, quase vazia de significado. Não evocava acolhimento nem segurança — apenas paredes, expectativas e a sensação constante de estar encurralada por uma vida que talvez nunca tivesse realmente escolhido.

Enquanto dirigia pelas ruas desertas, a cidade parecia distante, indiferente. Os faróis desenhavam um túnel de luz inquietante à frente.

No banco traseiro, Cássio murmurou algo ininteligível e se mexeu, voltando a cair na mesma posição.

Silvia apertou o volante com mais força.

Amanhã.

Tudo dependia daquele amanhã.

...

O domingo começou tarde na cobertura de Santiago.

A luz suave do meio da manhã atravessava as cortinas translúcidas, desenhando faixas douradas sobre o quarto silencioso. Helena despertou lentamente, ainda envolta pelo calor do corpo de Santiago ao lado dela. O braço dele permanecia firme ao redor de sua cintura, a respiração profunda e tranquila contra seu pescoço.

Por alguns segundos, ela permaneceu imóvel, apenas absorvendo aquela sensação rara de paz.

— Bom dia… — murmurou ele, a voz rouca de sono junto ao seu ouvido.

Helena sorriu sem abrir os olhos.

— Já é dia?

Como se a prisão tivesse se tornado o único estado possível.

Helena trabalhava em silêncio absoluto, o rosto sério, os movimentos precisos, quase cirúrgicos. De vez em quando recuava um passo, observava, voltava a avançar, acrescentando pequenos detalhes.

Santiago havia tentado ler. Não conseguiu.

O silêncio do apartamento era preenchido apenas pelo som leve das pinceladas e pelo ocasional tilintar de vidro quando ela limpava o pincel. Havia algo hipnótico naquele ritmo, como se cada movimento carregasse uma emoção que ele não conseguia ignorar.

Depois de algum tempo, seu celular vibrou. A comida que pedira havia chegado.

Antes de ir até a porta para atender o entregador, se permitiu contemplá-la.

Ele não conseguiu se conter. Pegou o celular e enquadrou a cena com cuidado. Da posição em que estava, a pintura permanecia fora de alcance, protegida pela própria perspectiva — nada do que havia na tela seria capturado, apenas ela... sentada em uma banqueta alta completamente imersa no processo, vestindo uma calça clara e confortável que se abria suavemente sobre os pés descalços e uma regata simples que deixava os ombros livres. O cabelo preso de maneira despretensiosa por um lenço verde — em harmonia com as plantas da sacada ao fundo.

Segurava o godê em uma mão e o pincel na outra, serena e concentrada. Uma mancha de tinta marcava o antebraço, detalhe pequeno e íntimo que tornava a cena ainda mais humana. A luz suave que entrava pela porta aberta caía sobre ela contornando sua silhueta com uma delicadeza quase irreal, como se a transformasse, por um instante, em parte da própria obra que criava.

Havia algo profundamente comovente em testemunhar aquele momento — como se estivesse vendo uma parte da alma dela se materializar diante de seus olhos, crua e honesta fazendo-o se apaixonar por ela ainda mais.

Poderia ficar ali para sempre se isso não fizesse a comida esfriar. E Helena precisava comer. Por ela e pelo bebê.

Assim que terminou de organizar a mesa, pegou novamente o celular e voltou a observar a foto que havia tirado há pouco. Precisou admitir — talvez fosse uma das imagens mais bonitas e verdadeiras que já tinha dela.

Sem pensar demais, abriu a rede social, fez o upload da fotografia em seu perfil e, na legenda, escreveu apenas: “Como não me apaixonaria por você? — Te amo!”

Sorriu ao confirmar a postagem, ainda tomado por aquele encantamento quase juvenil que ela despertava nele. Só então guardou o celular e retornou ao estúdio, parando encostado no batente da porta, observando-a por um instante antes de falar.

— Hora de almoçar, vida.

Helena piscou algumas vezes, emergindo lentamente da imersão criativa. Levou o olhar ao seu antigo relógio de madeira — que Santiago fizera questão de trazer entre seus pertences — e percebeu, não sem surpresa, que havia perdido novamente a noção do tempo.

Um sorriso suave curvou seus lábios.

Com movimentos cuidadosos, limpou os pincéis e os acomodou sobre o descanso de cerâmica em formato de montanhas. Pegou o celular apoiado no aparador e lançou um último olhar para a tela ainda fresca de tinta. A imagem parecia pulsar, viva.

Então se voltou para Santiago.

Caminhou até ele e o envolveu num abraço, aconchegando-se contra seu peito. Ele sorriu, levantando a mão para tocar o braço dela. Com a ponta do dedo, limpou delicadamente o traço de tinta ainda úmida, observando-o por um instante antes de transferir a mancha para a ponta do nariz dela.

Helena arregalou os olhos, surpresa, e caiu na risada.

— Santiago!

Ele mal teve tempo de reagir antes que ela encostasse o próprio nariz no dele, espalhando a tinta pelos dois. O resultado foi ainda mais caótico — e muito mais engraçado.

Ao lado, Mabe latiu animada, pulando como se participasse da brincadeira, o rabo abanando freneticamente diante da explosão de risos.

Ainda sorrindo, Helena sentou-se à mesa ao lado dele. Ao destravar o celular apenas para verificar se havia alguma mensagem importante, notou uma notificação inesperada: fora marcada em uma postagem de Santiago.

Franziu a testa, intrigada, e lançou um olhar questionador para ele.

Santiago, subitamente muito interessado em servir o prato diante dela, desviou o olhar com uma expressão inocente demais para ser convincente.

Helena tocou na notificação.

A tela se abriu diretamente na postagem.

A fotografia apareceu — ela mesma, concentrada diante da tela, envolta pela luz suave da manhã, completamente alheia ao mundo. Ao fundo, a música How Long Will I Love You, na voz delicada de Ellie Goulding, preenchia o ambiente com uma ternura quase dolorosa. E abaixo, a legenda carinhosa.

Por um instante, Helena apenas encarou a imagem, sem reagir.

O coração acelerou de forma inesperada. Engoliu em seco, piscando para conter a umidade repentina nos olhos.

— Você… — começou, a voz mais suave do que pretendia. — Eu nem percebi você tirando…

Santiago deu de ombros, fingindo casualidade.

— Eu sei.

Helena levantou o olhar para ele, e dessa vez não tentou esconder o que sentia.

Havia gratidão. Ternura. Algo profundo e quase assustadoramente bom.

— Eu tenho tanta sorte de ter você — confessou sorrindo.

Ela deixou o celular sobre a mesa e segurou a mão dele por cima do tampo, entrelaçando os dedos como se precisasse confirmar que ele estava ali — real, presente, não apenas um sonho prestes a desaparecer.

O almoço prosseguiu leve, pontuado por risos, olhares cúmplices e a sensação rara de normalidade. Do lado de fora, o domingo seguia tranquilo, o sol refletindo nas janelas da cidade como se nada no mundo pudesse ameaçar aquela paz doméstica.

Mas, em outro ponto da cidade, o clima era tudo menos sereno.

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