“As pessoas raramente veem a verdade por trás daquilo que desejam acreditar.” Tolstói
Com passos lentos, Cássio terminou de descer os degraus da escada, parando a poucos metros de Silvia, ainda sentada no sofá. O silêncio entre eles parecia espesso demais para uma manhã que deveria ser especial.
— Você está bem? — perguntou, cauteloso. — Acordei e não te encontrei. Pensei que tivesse saído.
Silvia inspirou fundo de forma quase imperceptível, organizando-se por dentro antes de erguer o rosto. Vestiu o menor sorriso que conseguiu sustentar, um gesto polido demais para ser espontâneo.
— Não quis te acordar… então desci — respondeu, como se já tivesse ensaiado a justificativa. — E você? Como está?
Ele soltou uma respiração pesada, passando a mão pelo rosto.
— Com uma ressaca de matar. — Fez uma pausa, tentando reconstruir a noite anterior. — Como eu cheguei em casa ontem?
— Eu fui te buscar. O Renato me ligou avisando que você tinha bebido demais, então…
A frase ficou suspensa, mas o suficiente foi dito.
Cássio imaginou o esforço que aquilo devia ter exigido dela — especialmente estando grávida — e uma pontada de culpa atravessou seu desconforto físico.
— Me desculpe por isso.
Ela apenas assentiu, sem drama.
— Vou tomar algum remédio… ver se melhora — continuou ele. — Sabe onde está a caixa de medicamentos?
— Embaixo do balcão.
Cássio caminhou até a cozinha e encontrou a caixa no lugar indicado. Enquanto a abria, lançou um olhar ao redor, desejando instintivamente uma xícara de café forte, algo que ancorasse o estômago e a cabeça. A cozinha, porém, estava impecável e vazia — nada preparado, nenhum sinal de manhã em andamento.
Quase comentou, mas se conteve.
Se a noite dele havia sido ruim, a dela provavelmente também fora. Não tinha direito de exigir nada.
Engoliu o comprimido seco.
Silvia havia se levantado.
— Vou subir para me trocar — disse ela, já caminhando em direção à escada. — Sua mãe e sua irmã devem chegar a qualquer momento. Vamos juntas para o hotel nos arrumar.
Cássio assentiu, ainda apoiado no balcão, observando-a subir.
— Certo… — respondeu, sem entusiasmo. — Nos vemos na cerimônia.
Ele lançou um olhar lento ao redor, tentando entender por que tudo parecia fora do lugar. Não havia nada concretamente diferente — os móveis estavam onde sempre estiveram, a luz entrava pelas janelas como em qualquer manhã — e, ainda assim, tudo parecia desconexo.
Silvia, principalmente.
Ela não estava grudenta, não buscava contato físico, atenção ou qualquer sinal de proximidade. Aquela ausência era desconcertante. Estranho demais.
Era como se, de repente, não houvesse mais ninguém orbitando ao seu redor. E isso o deixou, de forma inesperada, profundamente sozinho.
A sensação veio súbita, quase física, amplificada pelo silêncio da casa grande demais, fria demais, vazia demais para um dia que deveria estar repleto de movimento e expectativa.
Lembrou-se então de que tinha marcado com Renato de se encontrarem no barbeiro depois do almoço, para um corte de cabelo antes da cerimônia. Ainda havia tempo de sobra até lá — tempo demais, na verdade.
Olhou novamente para a cozinha, perguntando-se onde acabaria almoçando, incapaz de imaginar a mesa ocupada apenas por ele.
“Quantas vezes Helena havia comido ali sozinha?”
Seu olhar pousou na cafeteira.
Com um suspiro resignado, aproximou-se e começou a preparar o próprio café, os movimentos lentos, mecânicos, enquanto a cabeça continuava latejando e o gosto amargo da noite anterior insistia em permanecer.
O aroma forte logo começou a se espalhar pelo ambiente — quente, reconfortante… e completamente insuficiente para preencher o vazio que parecia ter se instalado ali.
...
Silvia escolheu um vestido leve e uma sandália baixa. Prendeu o cabelo em um rabo discreto na altura da nuca — não havia motivo para se produzir demais, já que seguiria direto para o hotel para se arrumar. Limitou-se a um protetor solar e uma camada suave de base, o suficiente para uniformizar a pele sem parecer que estava pronta para um evento.
Estava finalizando o batom quando a campainha tocou.
Com movimentos lentos, guardou alguns itens na bolsa, colocou os sapatos de salto de volta na sacola e pegou o vestido de noiva que permanecia cuidadosamente pendurado. Respirou fundo antes de sair do quarto.
Ao se aproximar da cozinha, encontrou Esther e Viviane ao lado de Cássio, reunidos junto à bancada, conversando em voz baixa. Como estava sem salto, seus passos foram silenciosos o bastante para que parte da conversa chegasse até ela antes de ser percebida.
— Meu filho, já passou da hora de você criar juízo. Onde já se viu discutir com sua noiva por causa daquela mulherzinha? — dizia Esther, com indignação.
Cássio soltou um suspiro irritado.
— Ela já foi choramingar para você?
— E para quem mais ela pediria apoio? — rebateu Esther. — Ela não tem ninguém neste mundo. E agora ainda carrega um filho seu, meu neto. Você precisa ser mais atencioso.
Ao lado, Viviane mantinha uma expressão carregada, claramente ainda ressentida pelo episódio do dia anterior.
— Aquela ordinária teve a audácia de me expulsar da boutique — disparou. — Quem ela pensa que é para me humilhar daquele jeito? Se não fosse essa maldita medida protetiva…
Cássio franziu a testa, confuso.

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