“Há caminhos que se tornam destino no instante em que são escolhidos.”
Os passos de Cássio quase vacilaram.
Dante estava ali, entre os convidados.
Como?
E, mais importante… por quê?
Nos últimos dias, ele quase conseguira empurrar aquela dívida para o fundo da mente — os cem milhões, o acordo obscuro, a promessa feita sob pressão. Haviam combinado de se encontrar na fábrica na manhã seguinte para formalizar a entrega do setor de logística, mas ele não o convidara para o casamento.
Na verdade, mal o conhecia de fato. Não sabia praticamente nada sobre ele. E ainda assim, ali estava Dante.
Terno vinho impecável, gravata da mesma cor em um tom mais escuro. A cicatriz que cruzava seu rosto destoava dos demais, tornando-o uma presença difícil de ignorar.
Dante inclinou levemente a cabeça. Um sorriso discreto. Um aceno quase imperceptível, mas suficiente.
Para Cássio, aquilo soou como um aviso.
Não havia como parar agora. Não no meio do corredor. Não sob os olhares atentos de tantos sócios, conselheiros e parceiros.
Continuou a caminhar. A mãe ao lado. A música preenchendo o ambiente. Os flashes estourando.
Mas a sensação de olhos fixos em sua pele tornava cada passo mais pesado.
Reprimiu o impulso de afrouxar a gravata borboleta. Engoliu seco.
Sentia-se exposto.
Vulnerável.
Como se estivesse nu diante de todos.
E a qualquer instante alguém pudesse arrancar a máscara de controle que vestira para entrar ali.
Se Dante disser qualquer coisa…
Ali, diante do conselho. Diante dos investidores. Diante da imprensa.
A dívida. Os cem milhões. A negociação obscura.
Mas Dante não faria isso. Não faria.
Ele queria o setor de logística, e Cássio já havia concordado em entregar. Não havia motivo para um escândalo.
… Havia?
Quando finalmente alcançou o cerimonialista, parou diante do altar e inspirou profundamente.
Precisava se recompor. Precisava parecer inabalável.
Endireitou os ombros, alinhou o olhar e assumiu a expressão firme que o mercado conhecia tão bem.
Esther sequer percebeu qualquer alteração no filho. Estava ocupada demais distribuindo sorrisos e acenos calculados aos convidados, absorvendo os olhares como se estivesse diante de uma plateia pronta para lhe entregar uma estatueta dourada.
Ali, tudo era performance.
…
No quarto reservado da noiva, o coração de Silvia parecia prestes a romper a caixa torácica.
A tela do celular ainda exibia a segunda cobrança no mesmo valor de um real.
Agora de outro estabelecimento, mas na mesma região.
Alguém estava brincando com ela.
Antes que pudesse mergulhar mais fundo no pânico — antes que pudesse cogitar quem poderia estar com aquele cartão, quem poderia ter removido o corpo de Márcio — alguém bateu à porta.
Três toques firmes.
Ela quase deixou o aparelho cair novamente pelo susto.
A organizadora do evento entrou com um sorriso profissional e contido.
— Já está no seu momento.
No seu momento.
Silvia forçou um sorriso que não alcançou os olhos. Desligou o celular imediatamente — não apenas silenciou, desligou. Como se o simples fato de ele estar ativo pudesse permitir que alguém a rastreasse, a expusesse, a destruísse.
Guardou-o na pequena bolsa e a entregou à organizadora.
Sem telefone.
Sem ligação com o exterior.
Talvez fosse melhor assim.
Ao sair, encontrou Carlos aguardando do lado de fora do salão. Ele lhe ofereceu o braço com um sorriso largo e orgulhoso.
— Pronta?
A organizadora posicionou o buquê de flores lilás em suas mãos. As pétalas delicadas contrastavam com o tremor quase imperceptível que percorreu seus dedos ao segurá-lo.
Carlos notou.
— Não precisa ficar nervosa — disse em tom paternal. — Está tudo lindo. Assim como você. E tudo vai correr bem.
Tudo vai correr bem.
Silvia queria acreditar nisso mais do que qualquer coisa.
Do outro lado da porta, a música começou.
E, enquanto o cerimonialista anunciava sua entrada, Silvia teve a estranha sensação de que estava caminhando não apenas para um altar… mas para o centro de uma armadilha cuidadosamente montada.
...
As portas se abriram.
A música se expandiu pelo salão como uma onda cuidadosamente ensaiada.
Silvia surgiu parada à entrada, o braço enlaçado ao de Carlos. O vestido branco moldava-lhe o corpo com imponência, as pedras reluzindo sob a iluminação estrategicamente posicionada. O buquê lilás contrastava com a palidez sutil de seu rosto.
Os convidados se inclinaram levemente, celulares erguidos, fotógrafos ajustando o foco.
Cássio, ainda perdido no próprio turbilhão, levantou o rosto.
Ela estava bonita. Inquestionavelmente bonita.
Mas a visão do branco — aquele branco específico, carregado de simbolismo — não o levou a Silvia.
Levou-o a outra imagem.
Helena.
Vestida de branco também.
Não em um salão luxuoso, mas em um cartório modesto. Um vestido simples, quase tímido, escolhido mais por delicadeza do que por ostentação.
Não houve flores exuberantes.
Não houve fotógrafos.
Apenas eles dois e a família como testemunha.
Rogério e Consuelo haviam oferecido pagar uma festa. Insistiram, inclusive. Queriam celebrar a união da filha.
Mas ele recusou.
Já haviam ajudado demais — contribuíram com o capital inicial da empresa. A mesma empresa que ele abriu naquele exato dia.
A empresa para a qual foi imediatamente após assinarem os papéis. Deixando Helena em casa. Sozinha. Onde ela o esperou, dia após dia, por mais de cinco anos.
Prometeu que, quando o negócio prosperasse, daria a ela o casamento que merecia.
O sucesso veio.
Os contratos chegaram.
O nome cresceu.
Mas a promessa… nunca foi cumprida.
Porque a presença dela parecia garantida.
Agora ali estava ele, diante de uma cerimônia extravagante, prestes a se casar com outra mulher.
Uma mulher que não amava.
E, entre os convidados, a sombra de Dante pesava como uma ameaça silenciosa.
Cássio deixou o olhar percorrer o salão.

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