“Há passos que, uma vez dados, já não podem ser recolhidos.” Machado de Assis
O corte terminou.
O barbeiro retirou a capa com um movimento preciso e ofereceu o espelho para que Cássio visse o resultado. Ele assentiu mecanicamente. Estava impecável. O cabelo alinhado, a barba simétrica, cada detalhe no lugar.
Por fora.
Levantou-se, vestiu o smoking e ajustou os punhos da camisa enquanto Renato pagava a conta. Nenhum dos dois comentou sobre a matéria. Mas ela estava ali. Entre eles. Entre cada silêncio.
Do lado de fora, o carro já os aguardava. O motorista abriu a porta e Cássio entrou primeiro. Renato sentou-se ao seu lado.
A cidade seguia seu ritmo habitual de domingo — trânsito moderado, céu claro, pessoas alheias ao fato de que, para ele, aquele dia deveria marcar o início de uma nova vida.
O celular vibrou novamente.
Grupo da família.
Fotos do hotel.
Vídeos do salão finalizado.
Viviane falando animada demais.
Ele visualizou sem realmente enxergar.
A tarde chegava ao fim e a cerimônia se aproximava.
Renato lançou um olhar discreto para o amigo.
— Ainda dá tempo — murmurou.
Cássio manteve os olhos na janela.
— Tempo para quê?
— Para decidir com clareza.
O carro avançou por um semáforo. A luz vermelha tingiu o interior por alguns segundos antes de mudar.
Cássio inspirou fundo, mas não respondeu.
O celular vibrou outra vez.
Desta vez, não era o grupo da família.
Era uma notificação individual.
Ele hesitou antes de abrir.
Era a postagem de Viviane — Silvia diante do hotel, sorrindo, impecável, com a legenda exaltando “o grande dia”.
Os comentários se multiplicavam.
Entre eles, um chamou sua atenção:
"Curioso como algumas pessoas precisam de um altar para legitimar o que começou como traição."
Ele bloqueou a tela.
O carro virou a última esquina.
Ao longe, já era possível ver o movimento na entrada do local da cerimônia. Convidados chegando. Fotógrafos posicionados. Funcionários correndo de um lado para o outro.
Cássio sentiu o peito apertar.
O motorista diminuiu a velocidade.
— Chegamos, senhor.
Por um segundo longo demais, Cássio permaneceu imóvel.
Do lado de fora, flashes começaram a disparar ao reconhecerem o veículo.
O mundo estava pronto.
Mas ele…
Ele ainda não sabia se estava.
...
Silvia estava sozinha diante do espelho.
Os profissionais já haviam se retirado. Esther e Viviane também, deixando-a isolada no quarto amplo do hotel, envolta em silêncio e perfume caro.
O vestido branco abraçava-lhe o corpo com perfeição calculada. A maquiagem impecável realçava seus olhos, tornando-os maiores, mais expressivos. O cabelo, com um topete lateral elegante preso em um coque estruturado, deixava o pescoço exposto — delicado, vulnerável.
Ela se observava como se analisasse outra pessoa. Inspirava lentamente, tentando manter o controle da respiração.
Faltava pouco.
Muito pouco.
Deixaria de ser Silvia Moretti — a garota fraca que precisou lutar por cada centímetro de espaço — para se tornar Silvia Amaral.
Esposa de um grande empresário.
Protegida por dinheiro.
Blindada por poder.
Talvez, finalmente, pudesse enterrar o passado junto com o sobrenome.
Enterrado.
Para sempre.
A ideia era quase reconfortante.
Seu celular vibrou novamente sobre a penteadeira.
Silvia o pegou, imaginando que fosse mais uma notificação das postagens frenéticas de Viviane, mas franziu o cenho ao notar que não era rede social.
Era uma notificação bancária.
“Cobrança efetuada: R$ 1,00”
Ela piscou.
Um real?
Não havia comprado nada. Não tinha nenhuma assinatura, nenhum débito programado naquele valor.
Clicou para ver os detalhes.
O mundo pareceu perder o eixo.
O celular escorregou de seus dedos e caiu no chão com um ruído seco que ecoou alto demais no silêncio do quarto.
Um frio violento percorreu sua espinha, subindo lentamente até se fixar na nuca. Sua visão pareceu estreitar-se por um instante.
Era uma compra feita em seu cartão. Aquele que ela havia entregue a Márcio.
Mas Márcio estava morto.
E mortos não fazem compras.
Silvia levou a mão ao peito, sentindo o coração bater rápido demais, irregular demais. O ar parecia insuficiente.
Não. Não. Não.
Com dedos trêmulos, abaixou-se para pegar o aparelho novamente. A tela ainda estava acesa.
O nome do estabelecimento saltava ali. Ela conhecia aquele lugar. Sabia que conhecia.
A mente correu freneticamente até que a memória se encaixou como um golpe.
A padaria. A pequena padaria de bairro próxima à casa de seus pais.
O estômago revirou. Não era apenas o valor simbólico de um real.
Era um teste.
Alguém estava verificando se o cartão ainda estava ativo?

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