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Quadros de um divórcio romance Capítulo 239

“Há escolhas que se tornam destino.” Machado de Assis

Viviane continuava a live com entusiasmo exagerado.

— O espaço está ficando lindo, gente! Eu mal posso esperar para mostrar tudo a vocês. De verdade, eu não poderia estar mais feliz. A Silvia é a mulher ideal para o meu irmão… a melhor cunhada que eu poderia ter.

Lançou um olhar rápido pela janela do carro antes de concluir:

— Bem, chegamos ao hotel! Vou encerrar aqui por enquanto, mas logo eu volto com mais detalhes!

A transmissão foi encerrada, mas o burburinho não.

Mesmo sem estar em seus melhores dias, o evento despertou curiosidade. Não era todo dia que o público acompanhava os bastidores do casamento de um empresário conhecido — ainda mais depois de tantos escândalos recentes. O glamour somado ao drama era combustível suficiente para manter qualquer audiência presa à tela.

O número de espectadores crescia exponencialmente.

As notificações começaram a pipocar sem parar. Até mesmo as amigas — que haviam se afastado após o episódio da festa da revista — voltaram a procurá-la, enviando mensagens empolgadas, emojis, elogios calculados.

Viviane encarava o celular cheio de alertas com um brilho quase febril nos olhos. Sentia-se revitalizada, reinserida no centro das atenções.

O motorista abria a porta do carro para que elas descessem. Mas antes de entrarem no Hotel ela fez um pedido a Silvia.

— Espera! Fica aqui.

Silvia obedeceu.

A fachada imponente do hotel de luxo erguia-se atrás dela, mármore, vidro e dourado refletindo o sol da manhã. Viviane capturou a imagem e publicou imediatamente.

A partir do momento em que cruzaram a entrada, não houve mais pausa.

Foram fotos. Vídeos. Lives.

Massagem relaxante.

Drenagem linfática facial e corporal.

Spa dos pés e das mãos.

Esfoliação.

Máscaras corporais.

Aromaterapia.

Cada detalhe registrado e compartilhado.

Os comentários cresciam na mesma proporção:

"Nossa, realmente não existe pessoa feia, só pobre mesmo. Olha como elas já mudaram, a pele está outra!"

"Ai credo… mas quem me dera."

"Quando eu casar, não aceito menos que isso."

Viviane parecia um pavão exibindo as próprias plumas, alimentando-se daquela atenção — mesmo que nem toda fosse direcionada a ela.

Os comentários negativos eram poucos, mas inevitáveis.

"Ainda não explicou por que foi levada pela polícia…"

"Nunca vi graça nessa garota, agora está usando o casamento do irmão pra aparecer."

"Essa Silvia não era a amante? Parece que conseguiu o que queria."

"Soube que ela está grávida, é um golpe do baú na certa."

"Só consigo pensar no colar da avó da Helena… roubado e dado pra essa amante."

"Ricos são nojentos."

Viviane torcia o nariz.

Estava animada demais para se importar com “meia dúzia de amargurados”, como ela mesma classificava mentalmente.

Esther, por sua vez, mal acompanhava a enxurrada digital. Estava ocupada demais dando ordens aos funcionários, exigindo ajustes, supervisionando detalhes como se o evento fosse um projeto corporativo sob sua responsabilidade, enquanto alguém arrumava seu cabelo.

Silvia, em silêncio, acompanhava tudo em tempo real pelo próprio celular.

O que tanto esperara estava, finalmente, acontecendo.

Ela seria a senhora Amaral.

Os comentários negativos a atingiam — era impossível que não atingissem — mas havia algo maior abafando qualquer dor: estava sendo vista. Comentada. Invejada.

Existia.

Houve até um certo prazer ao notar que, em meio às críticas, o nome de Helena surgia repetidamente. Era impossível que ela não visse aquilo. Impossível que não acompanhasse.

E a simples ideia de Helena observando tudo — vendo-a no centro, cercada de luxo — acendia dentro dela um calor perigoso.

Não era felicidade. Era vitória.

Um pequeno buffet, montado como camarim improvisado, ocupava parte da sala onde estavam. Frutas cortadas, sucos, pães delicadamente organizados — tudo impecável. Silvia mordia uma maçã com distração estudada quando, impulsivamente, abriu o buscador e digitou o nome de Helena.

“Será que ela já viu alguma coisa? Teria publicado algo com dor de cotovelo?”

Um sorriso torto surgiu em seus lábios.

Ela nem precisou terminar de digitar. Assim que pressionou a letra “H”, o nome de Helena apareceu como primeira sugestão. O algoritmo não mentia — era uma busca frequente demais para ser coincidência.

A tela se encheu novamente de matérias, fotos, vídeos, entrevistas. Mas nada relacionado ao casamento.

Nada sobre Silvia. Nada que indicasse incômodo.

O que chamou sua atenção foi uma pequena imagem perdida entre tantas outras. Discreta. Diferente.

Silvia clicou.

A manchete abriu em letras elegantes:

“Galerista Santiago declara seu amor pela noiva Helena em foto publicada em seu perfil — temos o novo casal do momento?”

E então a imagem se expandiu.

Helena aparecia serena, concentrada diante de uma tela. Vestia uma calça clara e confortável, os pés descalços tocando o piso. A regata simples deixava os ombros à mostra, marcados pela luz suave. O cabelo preso por um lenço verde harmonizava com as plantas ao fundo, que moldavam a cena com frescor.

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