— Vem cá, Lúcio, por que você está me chamando de "Presidente" com esse tom?
— Não há tom nenhum. Aqui é uma empresa, não um dojo de artes marciais. Obviamente precisamos de um pouco de formalidade.
O rapaz estava nitidamente contrariado. Provavelmente a exaustão tomara conta de seu corpo, e ele se ressentia pelo fato de a chefe passar o dia ausente, delegando tudo aos outros.
— Certo, como você quiser. De agora em diante, só vou te chamar de Gerente-Geral e não uso mais o seu nome.
Era verdade que o computador de Tainá tinha acesso a todo o sistema da empresa. Mas ela passara o dia inteiro presa na escola, depois jantara às pressas e voara direto para o escritório. Onde encontraria tempo para analisar relatórios?
— Nosso Gerente-Geral realmente teve um dia estafante.
Logo cedo, ele convocou uma reunião de emergência com todos os líderes de departamento. Fez ressalvas, exigiu complementos, deu orientações cruciais.
Terminada a reunião, o Sr. Índigo ainda fez questão de ir pessoalmente aos pontos de distribuição, fiscalizar o alinhamento dos veículos e dialogar com a equipe de campo.
E, depois de tudo isso, passou o resto do expediente lidando com os mais variados chamados de suporte.
Usuários estacionando em lugares indevidos e prejudicando a paisagem urbana, infrações às leis de trânsito, sem falar nas pessoas que pagavam o depósito e depois não conseguiam encontrar as bicicletas disponíveis nas ruas...
Alguns desses transtornos já haviam sido previstos por Tainá, e as soluções estavam incorporadas nos termos de uso. Eram fáceis de resolver.
Contudo, surgiram várias eventualidades inéditas que exigiam a criação ou a adaptação de novas regras.
Tainá examinou os números do dia. Haviam colocado vinte mil bicicletas nas ruas, mas cerca de quarenta mil pessoas já haviam pago o depósito. O sucesso do projeto era inegável.
Mas um problema imediato batia à porta: com a demanda superando drasticamente a oferta, seria cada vez mais difícil para os clientes encontrarem uma bicicleta livre. Era essencial acelerar a distribuição de novas unidades.
O plano original de injetar quatrocentas mil bicicletas não fora tirado do nada. O departamento de marketing calculara essa métrica com base em uma pesquisa detalhada da demanda urbana.
Uma frota gigantesca resultaria em unidades paradas e enferrujando, sobrecarregando a equipe de manutenção e maculando a estética da cidade.
Por outro lado, se a oferta fosse escassa, os usuários ficariam frustrados pela dificuldade em achar veículos e começariam a solicitar o reembolso em massa.
— Certo, certo. Eu reconheço o esforço de vocês. O bônus deste mês será dobrado!
O lucro da empresa estava diretamente atrelado à remuneração dos funcionários. Com essa promessa, todo o cansaço foi instantaneamente ofuscado pela empolgação.
Naquele mesmo fim de tarde, após o término das aulas, Laura Torres fez questão de faltar às aulas de reforço. Ela também não avisou ao mordomo para buscá-la mais cedo; simplesmente caminhou para fora dos portões da escola sozinha.
Parada em um beco isolado, Laura cerrou os dentes.
Os músculos do seu rosto chegavam a tremer de tensão. A inveja doentia que sentia por Tainá já havia se transformado em um ódio incandescente.
Era simples: se Tainá ousava ter uma vida melhor que a dela, então as duas eram inimigas mortais.
Ela sacou o celular do bolso e discou um número.
— Alô? Algum problema, minha salvadora?
A voz pertencia a um marginal que Laura havia conhecido por acaso algum tempo atrás.
Certa vez, ao retornar de uma tarde de compras em uma joalheria com Viviane Lopes, mãe e filha se depararam com uma briga brutal à beira da rua.
Os agressores notaram a presença de testemunhas e pausaram os golpes. — Eu te dou mais um dia. Se o dinheiro não aparecer, você pode dizer adeus às suas mãos.

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