Capítulo 102
Emma Collins
O carro parou com um solavanco seco. O silêncio que veio depois me deu um calafrio, como se até o motor tivesse se recusado a roncar naquele lugar. O motorista girou para mim, um homem que não disse sequer uma palavra durante todo o trajeto. Os olhos escuros me analisaram por um segundo antes de ele destravar a porta.
— Chegamos. — a voz saiu baixa, quase impessoal. — Desça.
Olhei pela janela antes de obedecer. O cenário não tinha nada a ver com o que eu esperava: não era um galpão ativo, cheio de vida e movimento clandestino como eu imaginava que Jackson frequentaria. O lugar parecia esquecido pelo tempo, uma parte do Brooklyn onde a ferrugem já tinha vencido o ferro e o mofo respirava melhor que as pessoas.
O “Armazém C”, como ele dissera, era um retângulo de tijolos desbotados, janelas rachadas, portas de ferro corroídas. A rua estava vazia. Só o vento, carregando o cheiro de óleo velho e maresia.
O coração bateu mais rápido. Por um segundo pensei em não descer. Mas o olhar do motorista era uma ordem. Apoiei a mão na barriga e obedeci.
Assim que meus pés tocaram o chão frio, senti a vulnerabilidade. A sola molhada escorregou contra o asfalto. O motorista não ofereceu ajuda, apenas apontou com a cabeça para a porta lateral de ferro.
Dei os passos que pareciam pesar toneladas. O ferro rangeu quando empurrei, o som ecoando pelo galpão escuro.
Lá dentro, a luz era fraca, só lâmpadas penduradas de fios descascados, criando sombras alongadas. E foi entre essas sombras que eu o vi.
Jackson.
Só que não era o homem que eu lembrava, era muito pior.
Ele estava sentado numa cadeira de rodas. As pernas cobertas por uma manta, o tronco levemente curvado. O rosto… ah, o rosto dele parecia mais velho, consumido por uma raiva que envenenava até a pele. Cicatrizes recentes marcavam a lateral, lembranças da surra que Luca havia dado.
Quando me viu, os olhos brilharam — mas não de alegria. De puro ódio.
— Então é você mesmo… — a voz saiu rouca, quase um rugido contido. — A vadia que destruiu a minha vida.
O baque das palavras me atravessou. Engoli em seco.
— Jackson… eu… —
— Cala a boca! — o grito reverberou nas paredes ocas. Ele bateu com a mão no braço da cadeira. — Foi por sua causa. Você entende? — os olhos ardiam. — Eu era o irmão que deveria assumir a porra toda. Eu era quem deveria estar lá. Mas você… você me fez de palhaço. Avisou os homens do Luca.
O peito apertou. A vergonha queimou junto com o medo.
— Eu não queria que…
— Não queria? — a risada dele foi um estalo seco, doloroso. — Se não fosse você, Luca não teria me humilhado. Não teria me deixado nessa maldita cadeira. Ele fez isso porque você escolheu o lado dele! Porque você abriu a boca, porque você… — ele engasgou na própria raiva. — Você arruinou tudo!
Eu tremia, mas precisava me segurar.
— Eu vim aqui porque tenho algo importante. Algo que muda tudo pra te contar. Será que pode me ouvir?
— Nada muda. — ele cuspiu as palavras. — Nem todas as desculpas do mundo apagam o que você me fez.
— Jackson, escuta! — avancei um passo, ignorando o eco dos meus sapatos no concreto. — Eu estou grávida.
Ele congelou. O olhar endurecido hesitou por um segundo, e foi nesse instante que tentei respirar mais fundo, me agarrar à última esperança.
— É seu filho. Nosso filho. — falei, a voz quebrada, mas firme o suficiente para atravessar a distância. — Você sempre quis um herdeiro, e agora tem. Isso muda tudo, Jackson.
O silêncio caiu como chumbo.
Ele tremeu, olhando o sangue, olhando minha mão fraca tentando proteger a barriga.
— Emma… não brinca comigo… isso é verdade?
O som das próprias lágrimas pingando foi tudo o que consegui ouvir. A dor me consumia, o corpo querendo desmaiar, mas a mente agarrada à única coisa que importava: o bebê.
Jackson olhou, olhou e então a máscara de ódio rachou. O grito dele ecoou como um trovão:
— Carreguem ela! Carreguem para o hospital! AGORA PORRA! VAMOS LEVAR!
Homens apareceram das sombras, correndo, obedecendo.
Eu os vi de relance, vultos borrados. O som dos passos, da cadeira girando, dos gritos de Jackson se misturava ao latejar da minha ferida.
— Agora! Rápido! — ele berrava. — Ela não pode morrer! ISSO PODE ME FAZER TOMAR O CARGO DE LUCA!
O mundo escurecia. As vozes se tornavam distantes, como vindas debaixo d’água.
Tudo o que restava eram os batimentos no meu ouvido — os meus, os dele… os do bebê que eu rezava para ainda estar ali.
O chão gelado, o gosto de ferro na boca.
E a certeza cruel de que minha vida estava nas mãos do homem que acabara de tentar tirá-la.
Talvez fosse meu fim. Tudo bem. Pra que viver nesse mundo onde nunca me encaixei? Se eu morrer, pelo menos estarei com meu filho.

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