Capítulo 108
Luca Black
Eu não ouvi mais o vento nem os passos dos meus homens atrás de mim. Não ouvi nem o próprio coração batendo, embora eu soubesse que estava acelerado no pescoço, no maxilar, em todo lugar. Só a respiração da minha mãe, aos arrancos, era nítida — e o som engasgado de Jackson.
— Mãe, explica direito. — eu disse, sem abaixar a arma, mas sem apontá-la para ninguém. A mira estava suspensa entre dois fantasmas.
Minha mãe levou a mão ao pescoço, onde os dedos do meu irmão tinham deixado marca roxa. O rosto dela era a versão desbotada de todas as mentiras que sustentaram a nossa família.
— Vocês… — a voz dela falhou, voltou num fio — …são gêmeos. Mas não do mesmo pai. Eu era casada com o pai do Luca. Um dia a casa foi invadida quando seu pai estava numa viagem rápida e tudo aconteceu. O líder deles me estuprou por vingança ao seu pai. Dois meses depois eu descobri que estava grávida. Fizemos o exame de DNA enquanto estavam na barriga. Se fosse do estuprador eu iria abortar. Mas um de vocês era filho biológico...
— Você ia me abortar? — Jackson sussurrou.
— Desculpa... — ela pediu em lágrimas. — Na época eu estava com muito medo. Cheguei a pensar que meu marido me mataria para não ser envergonhado, mas depois ele decidiu assumir como dele.
O silêncio veio como explosão. Derrick abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada. Jackson recuou dois passos e tropeçou no tapete. Olhou para mim, depois para ela, como se procurasse chão num corredor sem piso.
— Isso é… — ele riu. Um riso curto, rachado. — Isso é uma piada de mau gosto.
— Não é piada. — minha mãe sussurrou, e eu reconheci no tremor dela o mesmo tremor da primeira vez que me viu sangrar ainda criança. — É possível, Luca. Clinicamente possível. Superfecundação heteropaternal. Dois óvulos liberados em uma mesma janela de tempo… fecundados por… — ela parou, respirou como quem engole cacos de vidro — …por homens diferentes.
Eu ouvi, mas demorei um segundo para aceitar que aquela sequência de palavras podia existir no meu mundo. Superfecundação. Heteropaternal. Dois homens. Dois destinos. Meu corpo entendeu antes da minha cabeça: as costas pesaram, como se um casaco de chumbo caísse sobre mim.
— Como foi? — perguntei. A pergunta saiu cortada, feita de ar que não chegava até o fim. — Como isso aconteceu exatamente? Disse que meu pai não estava. E os outros? Os homens da casa?
Ela fechou os olhos.
— Ele invadiu a casa. Eu era casada com seu pai, os soldados que estavam lá foram todos mortos, só sobreviveu o mordomo porque estava internado no hospital na época. O tempo… os dias seguintes… foram um borrão. Eu estava suja, com medo. — aspirou, os ombros subiram e desceram com esforço — Algumas semanas depois… eu… — a voz quebrou — …eu descobri que estava grávida. Ele matou o homem. Disse que o mundo não precisava dele. O torturou.
Jackson levou a mão ao peito, como se procurasse um bolso que não existia. A pupila dilatada, a testa reluzindo suor.
— Então eu… — ele apontou para si, tocou o esterno com o indicador, como um menino que tenta reconhecer a própria sombra — …eu sou… o quê, mãe?
— Meu filho. — ela respondeu, automática. — Você é meu filho.
— Não foi isso que eu perguntei. — ele cuspiu, e algo escuro atravessou o rosto, torceu a boca. — Eu sou o quê?
— O exame — ela continuou, mirando o chão, como se lá estivesse um roteiro — foi feito quando vocês ainda estavam na minha barriga. Dois sacos gestacionais, dois embriões. O médico sugeriu. O seu pai… insistiu. Ele queria saber. Se… se não fosse dele, se fosse daquele… — a voz falhou de novo — …eu ia interromper. Mas um de vocês era dele. Você, Luca. E o outro… não. Só que pai é quem cria. Ele te assumiu como filho, não pode negar.
Jackson inspirou pela boca, num assobio vazio.

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